A opinião de ...

Ecoando a Fratelli Tutti (V)

O individualismo radical, escreve o papa, é o vírus mais difícil de vencer (105), um vírus que chega a infetar algumas visões liberais que consideram a sociedade como uma mera soma de interesses e fazem da palavra povo uma simples mitificação (163).
Ora, o ser humano está feito de tal maneira que não se realiza, não se desenvolve, nem pode encontrar a sua plenitude «a não ser no sincero dom de si mesmo» aos outros (87). Porém, adverte o papa Francisco, não se pode reduzir a vida à relação com um pequeno grupo, nem mesmo aquele familiar, porque é impossível compreendermo-nos a nós mesmos sem uma teia mais ampla de relações (89). Semelhante predisposição, inscrita no campo da política, está muito além das estéreis discussões semânticas ou ideológicas (189), quais entreténs da nossa casa da democracia. Não admira que o papa deseje um enobrecimento da política de maneira a que não se limite às técnicas da aparência, ao marketing e às diferentes formas de maquilhagem mediática (197). Diante da fragmentação social e cultural, Francisco traça o perfil dum bom político: aquele que encontra soluções fazendo ouvir as vozes diferentes (191).
Não apenas no palco político, mas também naquele económico, à escala nacional e internacional, uma autêntica vontade de abertura conduz à transfiguração das reais estratégias, no sentido de as resgatar da marca do individualismo e as orientar para uma maior integração. Além disso, atendendo ao princípio da subsidiariedade, é desejável que se dê lugar a muitos grupos e organizações da sociedade civil que ajudam a compensar as debilidades da Comunidade Internacional, a sua falta de coordenação em situações complexas, a sua carência de atenção relativamente a direitos humanos fundamentais e a situações muito críticas de alguns grupos (175).
No fundo, o papa sonha em imergir-nos num grande dinamismo de abertura, aquele que tem os cambiantes e os aromas trinitários. Esse dinamismo é a caridade, que Deus infunde (91). Esclareça-se, no entanto, que há um aspeto da abertura universal do amor que não é geográfico, mas existencial: a capacidade diária de alargar o meu círculo (97).
Por fim, é importante sublinhar que a caridade divida não dispensa a caridade política. Antes, pressupõe-na. Daí que quando um indivíduo, acostumado quotidianamente a alargar o seu círculo, pode ajudar uma pessoa necessitada e o faz unido a outros, acaba por gerar processos sociais de fraternidade e justiça para todos e por entrar no campo da caridade mais ampla, a caridade política. E assim se avança para uma ordem social e política, cuja alma seja a caridade social (180).

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3808