A opinião de ...

Deus: a escolha sólida contra o medo líquido

Os discursos de hoje, infelizmente, são uma episteme e vivem de uma episteme. Influenciada pela (des)construção social de que não existem erros na vida, apenas lições, a humanidade orienta a sua razão de existir para uma forma de destino e não de escolha. Alguns não chegam já a considerar que vivem, apenas existem. Não escolhem, limitam-se a imitar. Não pensam, fantocham.
É um erro crasso, também no campo espiritual, julgar os acontecimentos apenas como positivos ou negativos, antes dever-se-ia apenas viver, contemplar, celebrar e aprender com a simplicidade de cada um dos acontecimentos. É bom recordar o livro de Zacarias: «Onde estão agora os vossos pais? E os profetas vivem para sempre? (…) Então eles converteram-se e disseram: “Deus agiu connosco como tinha determinado fazer, conforme os nossos caminhos e as nossas ações”» (Zacarias 1, 5).
Escolher, aprendemos, é isto mesmo: caminhos e ações. Escolher maior e melhor, é isto mesmo: caminhos e ações com Deus na Igreja.
A liquidez atual, com o aparecimento de novos mundos bárbaros, aumenta o sentimento de medo por uma grande maioria das pessoas, bloqueando a sua capacidade de saber escolher e confundindo o discernimento na azáfama diária, desafiando o tempo justo e necessário que torna firmes as escolhas, como vocação, em direção à marca original, «desde o princípio da criação Ele os fez homem e mulher» (Marcos 10, 6).
Submetidos a uma mesma matriz de manipulação da mente, muitos homens e mulheres de hoje, neste século que devia ser racional, «vagueiam errantes, como que perdidos num deserto árido, sem rumo e sem horizonte confiável» (Carlos Schmitt, O endereço de Deus), abandonaram a casa que é a Igreja, para habitar em tendas, que se montam ora aqui, ora ali, ao sabor das tendências. É excepcional a palavra que Deus imprimiu no profeta Jeremias: «abandonaram-me a mim, fonte da água viva, para cavar para si cisternas, cisternas furadas, que não podem conter a água» (Jeremias 2, 13).
Quem nos protege no mundo de hoje? Trump nos Estados Unidos ou Kim Jong-un na Coreia do Norte? Não creio que seja algum deles, estes são os homens das armas e «todos os que vivem pela espada, morrerão pela espada» (Mateus 26, 50). «A maldade bebe a maior parte do veneno que produz» (Séneca). Não é com estes homens que o nosso coração se acalma, nem muito menos o nosso espírito vivencia a paz.
Cristo, o filho Unigénito, com o coração aberto, isto é, com sentido e com sentimento humano, é o único nome que, uma vez pronunciado, pode salvar-nos das cavernas de «projecções fantasiosas» (Platão), pois Ele mesmo afirma «tudo o que pedirdes em meu nome, vos será concedido» (João 14, 14), e ainda mais «estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mateus 28, 20). Aqui reside a esperança d´Aquele que não nos abandona.
A Igreja é assim o tabernáculo onde reside toda a alegria, toda a paz, toda a esperança. Não há escravidão na Igreja fundada por Cristo, em nome da Trindade, tudo é diálogo entre irmãos e amigos, não há escravos, «já não vos chamo servos (…) mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai» (João 15, 15).
Viver com medo é ser escravo. Viver com medo é aceitar viver prisioneiro nas nossas casas, saindo apenas ao toque da indústria da internet, senhora das moscas, e dos furacões das políticas, senhor dos eleitos. O que não falta é espolio de competição individual, onde se deixa de olhar para a construção social, porque se deixa de ser livres com Deus e passa-se a ser escravo do mundo das auto-satisfações, da câmara de ecos e salas de espelho. Deus já nos deu a sua mão de esperança, o que esperamos para a agarrar?
Quando deixamos de viver sob a suposta proteção desta civilização de casca frágil e reforçarmos o caráter transcendental da vida então «teremos de novo a oportunidade de corrigir, e não olharemos mais para trás, mas sim para a frente, a seguir para a frente” (Zygmund Bawman, A modernidade líquida).
“Então vi novos céus e nova terra” (Apocalipse 21, 1).

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