A opinião de ...

A Promoção da Cultura em Carrazedo, Bragança

“Tudo é ousado a quem nada se atreve”
(Fernando Pessoa)
Há uns meses, o meu prezado amigo Chef António deu-me a conhecer, numa conversa de circunstância e em primeira mão, a ousada pretensão de se fazer em Carrazedo, a lindíssima aldeia de sua mulher, um evento cultural, cujo cartaz contemplasse, entre outras coisas, teatro, música, dança, canto lírico, contadores de histórias, jogos tradicionais, exposições, pintura, artes e ofícios, etc.,
Na ocasião, pus a hipótese de dar o meu singelo contributo, divulgando publicamente, neste espaço literário, aquilo que me parecia ser um “projecto” capaz de vingar, não apenas pelo intento que encerrava, mas porque a pessoa mais consensual que conheço, o António, virtuoso carrazedense (por adopção), é, por si só, capaz de “arrastar” a vasta galeria de amigos (não virtuais!) . Mas o António pediu-me para não o fazer, por temer um eventual fracasso, porventura baseado no argumento de que a cultura por estas terras não é um “produto” muito apreciado e consumível.
Passado o momento de provação, pude constatar, porque estive lá, que as expectativas haviam sido superadas: o saldo positivo, o sucesso registado nesta primeira edição, realizada no pretérito dia 28 e 29 de Dezembro, que não deixou indiferente as pouco mais de duas centenas de pessoas que marcaram presença, é um claro sinal de que este evento, além do espaço de convivialidade que proporciona, se pode tornar numa das mais singulares e importantes manifestações culturais do distrito de Bragança.
Pode dizer-se que este magnífico encontro, no qual estiveram envolvidos Eduardo Pousa, o grande mentor, a Associação Aldeia, na pessoa de Isabel Sá, com a participação de Alexandra Vaz, Tânia Pires e Ana Sofia Pousa, o precioso contributo da Associação Penha Mourisca, representada por Teresa Pousa, João Pedro Pousa e o meu bom amigo António, etc., é merecedor dos mais rasgados elogios. Com o esforço abnegado de todos, foi possível fazer de Carrazedo, durante um fim de semana, a capital da cultura do nordeste transmontano; com a certeza de que a sua veleidade terá contribuído para, a partir deste importante passo, o lançamento da primeira “pedra”, colocar no mapa esta pequena e graciosa aldeia.
Como as gentes de Carrazedo, pela sua genuína hospitalidade e espírito prazenteiro, sabem interpretar como ninguém o verdadeiro sentido da palavra “confraternizar”, foi possível darmo-nos conta de que estávamos num ambiente “cum fratribus”, em que o nobre propósito é não mais do que o interesse desapegado por esse bem imaterial, impagável, que dá pelo nome de cultura.
Um desafio revelador de que, ao contrário da crença, o povo é atraído por interesses que vão muito para além da superficialidade. Por isso, a minha vénia e admiração a quem se propôs desmontar, sem reclamar qualquer protagonismo ou exposição mediática, tal preconceito.
Pelo “profissionalismo” demonstrado por quem se aventurou a tamanha demanda – merecendo, pois, o público reconhecimento -, fica a certeza de que, pelo efeito multiplicador dos bons exemplos, as futuras edições serão marcadas pelo dinamismo e por ideias cada vez mais arrojadas e apelativas.

Edição
3763