A opinião de ...

Xenofobia e Racismo, os Vocábulos da Moda

No dia em que o hediondo crime de que foi vítima o jovem cabo - verdiano Luís Giovani Rodrigues, aluno do Instituto Politécnico de Bragança, se tornou notícia nacional, dois destacados dirigentes políticos, duma forma incendiária e irresponsável, quando se lhe exigia algum recato e ponderação (pela nobre função que exercem, como deputados da nação), deram a entender, num comentário feito nas redes sociais, a par da exigência da celeridade da justiça para encontrar os culpados, que o mesmo tinha tido motivações raciais.
Na sequência de tão imprudente apreciação, aconteceu o habitual neste tipo de situações: muitos dos comentários emitidos, anonimamente, online, estabeleciam a inevitável comparação entre este caso e o que, em Lisboa, no dia 28 de Dezembro, vitimou Pedro Fonseca, um jovem de 24 anos, por resistir ao assalto que contra si fora perpetrado. Ou seja, num e noutro, em que assassinados e assassinos divergiam na cor da pele, é questionada a razão pela qual o crime que foi praticado em Bragança ter contornos racistas, e o que aconteceu dois dias antes, na capital, ser apenas um crime como tantos outros.
A mim, para quem qualquer homem é meu irmão, independentemente da raça ou credo, faz-me alguma confusão que a maior parte da imprensa nacional, escrita e falada, numa espécie de acordo de cavalheiros com uma grande dose de hipocrisia, omita a identidade dos criminosos, quando estes não são de cor branca. Esta dualidade de preceitos, “encomendada”, serve não para erradicar o mais abominável dos sentimentos humanos, mas para o disseminar.
Daí que confundir uma árvore com a floresta, confundir um gangue de malfazejos com uma comunidade onde o respeito pelo outro, pela tolerância, pela integração e multiculturalidade são valores sagrados – Bragança acolhe alunos do ensino superior de mais de 70 nacionalidades, facto extraordinário! - só de gente mal intencionada, que age com o propósito de alimentar uma tensão racial que não existe.
Num estado de lucidez, a única conclusão que se pode tirar deste e doutros crimes similares é a seguinte:
1 – A sociedade está cada vez mais agressiva e violenta. 2 – Por muito que nos custe admitir, a cultura da chave na porta, que muito nos orgulhava, é coisa do passado: em Bragança já não se respira o nostálgico sentimento de segurança. Há casos de idosos assaltados em plena luz do dia. 3 – É cada vez mais discutível e duvidosa a convicção do benfeitor e filantropo Padre Américo, de que “não há rapazes maus…”. Sim, porque há rapazes verdadeiramente maus, impiedosos e cobardes, que tiram a vida ao semelhante por dá cá aquela palha. 4 – Por fim, a sentença lapidar de que a maldade não tem cor de pele.
Pois, o motivo da nossa revolta, enquanto cidadãos e pais, é sabermos que ao Pedro e ao Luís lhe foram roubados os sonhos. Se os olhos são o espelho da alma, estes dois jovens tinham um indisfarçável amor pela vida.
N.B: É meu dever, enquanto bragançano, deixar aqui um alerta às entidades locais que têm a incumbência de licenciar e fiscalizar os espaços nocturnos: há locais de diversão, frequentados por jovens, que deixam muito a desejar em termos de segurança. Se não queremos, mais uma vez, ser notícia pelos piores motivos, pela tragédia, é urgente que alguém faça alguma coisa!

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