A opinião de ...

Ganhar tempo para vencer o Monstro

A Covid-19 está no centro das atenções de todo o mundo. No centro das nossas preocupações. Seguimos com sofreguidão as notícias nacionais e estrangeiras. Esperamos ansiosamente pela relatório diário da situação epidemiológica. Lemos tudo, incluindo fake news, outra espécie de vírus das sociedades contemporâneas e também ele letal. Acompanhamos ansiosamente os progressos dos investigadores. Partilhamos as reflexões dos especialistas. Procuramos quem nos esclareça e ajude a pensar.
Tomas Pueyo escreveu um interessante e extenso artigo, Coronavírus: O Martelo e a Dança, em que ganhar tempo é a palavra de ordem. Ganhar tempo, ficando em casa para evitar o contágio e reduzir o número de infetados. Ganhar tempo para não sobrecarregar o SNS e permitir que os profissionais de saúde infetados recuperem (em Itália, representam 8%). Ganhar tempo para nos prepararmos e produzirmos equipamentos de prevenção e combate à epidemia. Ganhar tempo para que os cientistas estudem o vírus e descubram a vacina. Ganhar tempo, porque ninguém estava preparado para uma tal calamidade. Ninguém a poderia prever. Ainda ninguém conhece verdadeiramente o bicho. Ganhar tempo, porque estamos longe de encontrar o tratamento eficaz.
A pandemia do coronavírus conseguiu o impensável: isolar cidades e países de todos os continentes; fechar escolas, lojas e fábricas; imobilizar navios, carros e aviões; pôr em clausura voluntária milhões de cidadãos livres… Poder igual nunca dantes houve, nunca ninguém teve. A Covid-19 pôs o mundo às avessas. Pôs gerações, que nasceram em liberdade, cresceram na abundância e se habituaram a ter “tudo e já”, a ansiar pelo estado de emergência e a prescindir de direitos fundamentais. Reza a história que, perante o perigo de morte, o instinto de sobrevivência se sobrepõe a tudo o mais. E também nos ensina a história que uma crise é sempre uma oportunidade de mudança. Como aconteceu com as grandes epidemias, o coronavírus vai-nos obrigar a repensar o atual modelo de desenvolvimento económico e social. Aconteceu com a Peste Negra que, no século XIV, dizimou milhões de pessoas. Aconteceu com a cólera no século XIX. Aconteceu com a gripe espanhola no final da Primeira Guerra Mundial.
As alterações em curso indiciam que pouco deve ficar como dantes. Ninguém consegue prever os efeitos económicos, sociais, políticos, humanitários e civilizacionais. Mas uma coisa é desejável: que saiamos do pesadelo com novos comportamentos, novos hábitos de vida, menos materialistas e mais solidários, mais conscientes das nossas limitações e menos egoístas, mais preocupados com o ambiente e menos consumistas. Nicolas Chamfort, escritor francês do séc. XVIII, distinguia duas classe sociais: uma que tem mais apetite que comida e outra que tem mais comida que apetite. Desigualdade que se acentuou nas últimas décadas e que urge corrigir, devendo nós começar já, adotando comportamentos responsáveis e solidários.
Conter o vírus, é um dever de todos nós, um esforço que se vai prolongar por meses. Resta-nos, pois, seguir as orientações de quem tem competência e legitimidade para as dar, confiar nas autoridades de saúde e no Governo, e percebermos que precisamos, como nunca, uns dos outros. Ficar em isolamento social (à letra, não sair de casa), manter horários e rotinas, fazer exercício físico, ter cuidado com a alimentação, apanhar sol por causa da vitamina D, lavar as mãos e lavar muitas vezes, são algumas dessas recomendações.
O ser humano não é uma máquina. Temos sensações, pensamentos, emoções. Em situações-limite, de extrema adversidade e incerteza, as emoções podem impelir-nos para o erro. Já se percebeu que, na situação de emergência em que nos encontramos, o erro de um pode pôr em perigo a vida de muitos. Queiramos ou não, estamos todos no mesmo barco no meio de enorme tempestade, sem terra à vista. Porque a imprudência individual tem consequências na vida coletiva, ninguém tem o direito de correr riscos que podem conduzir à morte de familiares, amigos e conhecidos.
Termino, com o apelo do Papa Francisco aos empresários para não despedirem trabalhadores: o salve-se quem poder não é solução, uma empresa que despede para se salvar, não é uma solução, sublinhando que são os grandes gestos que agora fazem falta.

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