A opinião de ...

Cooperação transfronteiriça, mito ou realidade?

Ao longo deste ano, num trabalho que tem vindo a ser feito há quase uma década, a Guarda Nacional Republicana (GNR) sinalizou 41868 idosos a viverem sozinhos ou isolados em todo o país no âmbito da operação “Censos Sénior”.
De acordo com os dados divulgados por aquela força de segurança, o maior número de idosos identificados a viver sozinhos ou isolados foi no distrito de Vila Real (4736), seguido da Guarda (4183), Faro (3272), Viseu (3201) e Portalegre (3147), sendo que o distrito de Bragança, com 3142 idosos nessas condições, é o sexto da lista.
Ou seja, quase toda a faixa do interior do país (Bragança, Guarda, Portalegre e o Algarve) estão nos lugares cimeiros deste ranking.
É com este cenário que temos de discutir a valorização do interior. A criação de uma estrutura governamental em Bragança não é um fim e si mesmo, como alguns apregoam, mas um sinal de que as reivindicações da população do interior do país começam (ainda que muito ao de leve), a ser ouvidas. Ter uma voz mais própxima das pessoas faz com que não seja preciso gritar tão alto.
Mas não é isso que nos deve fazer baixar os braços.
Até porque, a reboque da realização de mais um Conselho Raiano (sábado), concluiu-se que, para além de uma voz forte, é preciso ter uma mensagem a transmitir, sob pena de só fazermos ruído.
A dica foi deixada por Jorge Wemans, provedor do telespectador da RTP, que admitiu, ainda, o abandono a que muito do território está votado em termos de cobertura mediática do serviço público de televisão.
Mas tem só de ter consciência que o problema não são sempre os outros. Apesar das responsabilidades “dos outros”, que as têm, não devemos sacudir a água do nosso capote.
Seja por comodismo, seja por querelas históricas (desde o período antes da fundação do país que as gentes da raia estão habituadas a andar à ‘porra e à massa’, com destaque para os episódios do século XVIII, como a invasão e destruição do Forte de S. João de Deus em Bragança ou a destruição do castelo de Miranda do Douro a criarem grandes ressentimentos dos dois lados da fronteira), a verdade é que tanto o Nordeste Transmontano como Castela e Leão (onde habitam dois milhões de pessoas, aqui mesmo ao lado), vivem de costas voltadas.
Seja pela estrada que não teve continuidade do lado de lá, seja pela autoestrada que os espanhóis não fizeram, seja pelo comboio de alta velocidade que construíram aqui mesmo ao lado sem nos darem cavaco (apesar da legislação o exigir), não há grande relação entre os dois lados da fronteira. Nem seuqer uma linha regular de transportes públicos entre Bragança e Zamora, que distam 90 quilómetros (menos do que Bragança e Vila Real).
Se por cá ainda vai havendo alguns exemplo, como as conferências de imprensa que a Câmara de Bragança faz questão de promover em Espanha, assim como as campanhas publicitárias que por lá faz, a verdade é que do lado contrário nem esse sinal de boa vontade se vê. E o Interior somos todos. Comecemos a valorizá-lo.

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