A opinião de ...

A PAPOILA DO LIVRE

Conheço várias pessoas que, votaram no Livre, exclusivamente por se reverem nas posições coletivas do partido, sobretudo, nas propostas expressas pelo seu líder e fundador. Não conheciam Joacine de qualquer outro lugar para lá da sua titubeante e enervante (não temos que ter medo das palavras quando estas traduzem a realidade) participação no programa do Ricardo Araújo Pereira. Hoje, perante as posições e atuações conhecidas da deputada, não escondem a sua desilusão e até arrependimento por terem colocado a cruzinha à frente do logótipo da papoila que representa o partido de RUI TAVARES! Apesar de a terem sufragado, nas urnas, não se reveem, nem se sentem representados em quem, em S. Bento, pede escolta policial para se “proteger” da imprensa. Mas foi o voto deles e de alguns milhares mais, com motivação igual ou semelhante que a elegeram. E que, sem elegerem, caucionam, ao exótico e arrogante adjunto político, as teatrais atitudes de superioridade intelectual.
Joacine não é, seguramente, a personificação da bela, efémera e frágil papoila escolhida para símbolo do Livre. Muito menos o seu neo-urbano, elitista (quem diria?) e extravagante assessor político. A reclamação de ter sido eleita, sozinha e sem o apoio do partido, é ridícula. Só é pena não poder ser já testada tão evidentemente falsa afirmação, para se verificar que as centenas de votos que a deputada, seguramente adicionou ao sufrágio recente seriam imensamente inferiores aos que estão já a afastar-se (alguns, definitivamente) do total que lhe deu a representação que, por isso, não exerce.

Daniel Oliveira, em cujas crónicas me revejo, com frequência, usa este fenómeno para atacar a corrente que defende uma maior proximidade entre eleito e eleitor, através de círculos uninominais. Já o tinha feito ao analisar as eleições onde o conhecidíssimo e reputado candidato do Aliança perdeu para alguns “desconhecidos” deputados de outros partidos. O problema é que os eleitores, no caso em análise, são chamados, precisamente, a votar em listas partidárias e não em individualidades. Ora não se podem misturar alhos com bugalhos. Não se pode analisar um comportamento tido num determinado contexto, extrapolando para o que poderia ser, num outro diferente. Sem descartar os partidos e reconhecendo-lhe algumas virtudes, sem lhes ocultar os muitos defeitos, continuo a defender um sistema misto em que se possa votar em personalidades. O caso que Daniel Oliveira agora apresenta como a maior prova de que não deve haver círculos uninominais, precisamente o da eleição de Joacine, é, pelo contrário, a meu ver, o maior argumento para a sua existência. Não tenho receio em apostar que, em votação nominal, a atual deputada, nem metade dos votos teria.
Uninominal é a eleição do Presidente da República e nem por isso alguém se atreveu a contestar-lhe a legitimidade e muito menos a representatividade!
A introdução dos círculos uninominais, não obriga, como erradamente conclui o cronista, a transformar os partidos em “federações de deputados e autarcas”. Os partidos podem e devem continuar a existir e a apresentar-se a eleições, pois é esse o seu principal objetivo. E podem apoiar, subscrever, suportar candidaturas unipessoais sem que isso os desmereça, amesquinhe ou coloque em causa a sua existência. Tal como acontece, precisamente, nas eleições presidenciais!

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