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Ano Novo, Luta Nova: Resíduos Urbanos em Portugal

O ano de 2026 coloca-nos perante um desafio claro e inadiável para Portugal: transformar a forma como produzimos, gerimos e valorizamos os resíduos urbanos (RU). A luta não é nova, mas o tempo para agir é cada vez mais curto. As metas europeias apertam, os custos de inação aumentam e as populações exigem soluções eficazes, justas e ambientalmente responsáveis.
No presente ano, a gestão de RU está no centro de três grandes pressões.
A primeira é regulatória. As metas de preparação para reutilização e reciclagem, a redução progressiva da deposição em aterro e a responsabilidade alargada do produtor colocam um nível de exigência sem precedentes sobre municípios, sistemas intermunicipais e operadores. Já não basta cumprir: é preciso demonstrar resultados consistentes e sustentáveis.
A segunda pressão é económica. O aumento dos custos operacionais (energia, transporte, tratamento e mão-de-obra) torna evidente que o modelo assente no aterro é financeiramente insustentável. Este ano, a valorização de resíduos deixa de ser apenas uma opção ambiental e passa a ser uma necessidade económica. Quem não investir em prevenção, recolha seletiva eficiente e valorização material ou energética pagará mais, seja via taxas, em especial pela TGR (taxa de gestão de resíduos), seja por penalizações ambientais.
A terceira pressão é social e territorial. Os cidadãos estão mais informados e mais exigentes. Exigem sistemas simples, transparentes e justos. Ao mesmo tempo, territórios de baixa densidade, como grande parte do interior, enfrentam desafios específicos: maiores custos por tonelada, dispersão populacional e menor escala. A coesão territorial passa também pela capacidade de garantir serviços de resíduos modernos e eficazes em todo o país.
Perante este cenário, 2026 deve ser um ano de implementação das medidas identificadas para descolar do cenário de profunda estagnação em que o setor se encontra. A prevenção deve ganhar peso e centralidade, com políticas locais de redução de resíduos, combate ao desperdício alimentar e promoção da reutilização. A recolha seletiva precisa de dar um salto qualitativo, com sistemas mais próximos do cidadão, incentivos económicos e melhor qualidade dos materiais recolhidos. Paralelamente, a valorização, material e energética, assume um papel estrutural para tratar os resíduos que não podem ser reciclados, reduzindo drasticamente a dependência do aterro.
Mas nenhuma destas mudanças será possível sem governança forte e decisões corajosas. É este ano que se testa a capacidade do poder local, das entidades intermunicipais e do Estado em alinhar políticas, investimentos e comunicação. A gestão de RU deixa de ser “apenas” um tema técnico, mas um instrumento essencial da política pública de ambiente, economia e qualidade de vida.
“Ano novo, luta nova” não é apenas um lema. 2026 tem de ser um ano de compromisso com Portugal, um país que produz menos resíduos, valoriza mais recursos e assume que o lixo de ontem pode ser a energia e a matéria-prima de amanhã.

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