A opinião de ...

Cesariana…

Para escrever um texto, qualquer que seja, a inspiração tem de andar por perto pois que o tema, farejado ou não, teve forçosamente de passar rente aos sensores, olhos, ouvidos e nariz, de centralina ao leme, a mente, bem oleada por sensibilidade própria.
Acredito que lá no passado, o vivido pelo próprio e o que se pode vasculhar no baú bolorento dos tempos que já lá vão é, com toda a certeza a força, o cerne, o ventre imaginativo donde sairão, por golpe de mágica, as ideias inovadoras. Sabe-se, porque se ouve e procura, que o segredo da originalidade não está nem no presente nem no futuro, a palavra o diz, mas sim nas origens, no que vem de trás, isto é, só se é original quando bem agarrado às origens pois que, o contrário, o futuro, anda de braço dado com a ciência de investigação, o novo.
Agora, na estafeta da vida, quando o finito canudo de 2019 é entregue ao atleta de 2020, é a altura de originar, passar em revista o que se passou no ano que se finda. Não é risonha a herança, os horrores perseguem-nos: corrupção, pedofilia, clima, políticos e miséria são nuvens negras, pesadas e explosivas, que toldam os céus que nos encimam.
Saber que o dinheiro sugado dos suores de todos, roubados das lágrimas de mais de metade das gentes deste irrespirável planeta, circula e se esconde protegido por leis geradas nas Assembleias mundiais, por políticos de esquerda e direita, simples marionetas dos verdadeiros detentores do poder, os corruptos, é esgana que sufoca, é dor sem cura à vista.
Saber que todos nós, todos mesmo, armados em educadores de vão de escada, somos os autores dos desvios escabrosos da mente, em que adultos profanam o sagrado direito de crescer de uma criança, e nada fazemos, é vergonha peçonhenta que nunca se lavará.
Saber que esta nossa querida mãe, o ventre que nos gerou, definha a olhos vistos minada por doenças inoculadas pelo mais terrifico dos filhos, o que ousou pôr-se em pé e caminhar, conhecendo os caminhos que ao precipício levam, saber isso e agora, esgotados no tanto caminhar, cruzar os braços, só pode ser avaria cerebral.
Saber que um punhado de gente controla e domina o único planeta azul conhecido, cá no nosso nano sistema solar, e que todos os outros são formiguinhas que entregam, sem resistência e exaustas, os haveres no celeiro, é fio de pólvora que a mega explosão levará.
Recuando ainda mais nos tesouros do passado, que nos tornam originais, a História informa-nos do carater formativo do Imperador dos Louros, autointitulado descendente direto dos Deuses, dos Grandes Júlios. Conta-nos Plínio, o Velho, que Ele se achou, também, descendente da luz do nascer, da luz de quando se dá à luz, mas da mais intensa, a proveniente do corte/rasgar, do latim “caedere”. As mutações linguísticas derivaram para cesariana, Caeser e, por último, César, o ditador Júlio César.
Neste ano que finda, exijamos em uníssono o direito de todos à luz que nos iluminou no ato de nascer, de parto normal ou por caedere, por César, por Cesariana…

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