A opinião de ...

Prioridade para a Lusofonia

É desafiante a identificação dos elos a cuidar para que o globalismo a que se chegou seja acompanhado do fortalecimento da articulação das comunidades múltiplas em que se dividiu a humanidade, designadamente pela especificidade do trajeto histórico de cada uma, pelas crenças religiosa, pelas etnias, sobretudo porque o separatismo se revela inquietante, como lucidamente concluiu Jacques Barzun (Da Alvorada à Decadência, Lisboa, 2003).
São estas as suas palavras: “De início, o separatismo foi possivelmente entendido como um estado de espírito passageiro. Mas um exame cuidadoso do Ocidente e do mundo mostrará claramente que a maior criação política do Ocidente, a Nação-Estado, estava doente”. E seguem-se as identificações que incluem, hoje, uma sequela possível do Brexit que seria a separação dos antigos reinos da Escócia e de Gales já hoje com parlamentos próprios, o regionalismo pregado em França, os Bascos e os Catalães a desafiarem a unidade da Espanha, a Bélgica a enfrentar o insuperável bilinguismo, e até no que toca ao Texas dos EUA lembrar que no seu passado foi necessário enfrentar o pensamento de regressar ao estatuto de República independente.
A história do presente, marcada pela desagregação e fim do colonialismo ocidental, depois da segunda guerra mundial (1939-1945) destacou, quanto ao separatismo, o fator étnico, com uma dupla face: fator de unidade como fronteira contra o outro, como que adotando assim o critério de uma matriz nobilitante, critério que também está no passado dos europeus, como os arianos para os germanos, os gauleses para os franceses, e até os lusitanos para os portugueses; a consequência negativa incluiu o esquecimento de que as Nações são de regra o resultado unificador de diferenças étnicas múltiplas, esquecimento que apoia as discriminações étnicas, os mitos raciais, a negação da igualdade jurídica e social, a criminalidade assumida como aconteceu com o programa governamental nazi de exterminação total dos judeus.
Talvez não seja completamente errado admitir que a etnia e a língua são fatores importantes, e ambos bivalentes, para enfrentar o divisionismo que o globalismo enfrenta, com barreiras que são obstáculos à organização de um “mundo único”, isto é, sem guerras, num globo que é “a casa comum dos homens”.
Quando, designadamente do Cabo ao Cairo, cresce uma ameaça de falência do conceito de “Nação Arco Íris” de Mandela, incluindo a utilização de milhares de crianças em combates, os valores da lusofonia, defendidos com autenticidade, são uma valiosa contribuição não dispensável para organizar a nova ordem.
A iniciativa de celebrar o Dia de Portugal, nas comunidades portuguesas e seus descendentes no estrangeiro, mas sobretudo quando esse estrangeiro é, como Cabo Verde, uma antiga parcela do passado império, uma contribuição para tornar efetiva a utopia da ONU de “mundo único”.

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