A opinião de ...

Já Ninguém Quer Passar Despercebido

“Lembram-se quando as pessoas tinham diários e ficavam furiosas quando alguém os lia? Hoje elas colocam tudo nas redes sociais e ficam furiosas se ninguém lê”.
Autor anónimo
Numa tarde destas, julgo que coincidente com o dia da Mulher, ao chegar a casa, cedi, como habitualmente, ao velho e maquinal hábito de ligar a televisão, depois de me recostar no sofá. Premindo aleatoriamente os botões do comando, fui dar por mim a ver um programa da “crónica social”, em que duas pseudo Tias, casadas com duas figuras públicas, se indignavam com a covardia, por detrás do teclado, de alguns dos seus “seguidores”, pelos comentários desagradáveis que acerca de si foram produzidos.
Pelo que me foi dado perceber, as ditas, que haviam gozado recentemente férias em dois lugares paradisíacos distintos, exageraram, pelas fotos publicadas nas redes sociais, no despudor com que exibiam os corpos semidesnudados, que, por sinal, estavam longe de ser Danone. Caso para evocar o aforismo: quem não quer ser lobo não lhe vista a pele.
Por muito que custe aos mais conservadores, a sociedade já não é o que era. Vivemos hoje no tempo da imagem, do vazio, da superficialidade, da vulgaridade, do faz de conta, da ilusão. Vivemos no tempo em que as nossas qualidades interiores são secundarizadas em detrimento do aspecto físico que julgamos ter. Vivemos, cada vez mais, num tempo em que o Ter prevalece sobre o Ser. Vivemos num tempo em que a aceitação social é proporcional ao grau de parvoíce e do tamanho do escândalo que provocamos nas redes sociais. Vivemos no tempo da ditadura hipócrita dos likes, que alimentam o ego. Vivemos o tempo da máxima latina “asinus asinum fricat”, da recíproca bajulação.
Ainda que não seja tocado por esse impulso gregário das redes sociais, vejo, com alguma frequência, certas “meçoilas” da minha geração e muito menos novas (com idade para ter juízo, como se costuma dizer) exporem-se, nos “instas” e nos “faces”, despudoradamente, sem qualquer noção do ridículo, quais teenagers na descoberta do corpo e da sexualidade. Mulheres que, não aceitando a idade que têm, teimam, extemporaneamente, viver etapas da vida que, por este ou aquele motivo, não queimaram no devido tempo. Mulheres que, não tendo noção de que a beleza e o encanto feminino são comuns a todas as idades, perdem a dignidade, sujeitando-se, de forma humilhante, à mendicidade dum like, dum piropo na versão polida dum qualquer técnico de balde de massa, do género “tás linda!”, “linda como sempre!”, “que sexy!”
É, pois, estranho que a Constituição da República Portuguesa, que consagra, através do n.º 1 do art.º 26.º, a “reserva da vida privada e familiar, haja cidadãos que abdiquem desse direito. A sorte é que, para o bem e para o mal, nada é efémero. Um dia, porque estes fenómenos são cíclicos, e por muito que consideremos que a sociedade está doente e com os valores invertidos, reclamar-se-á o recato e a dignidade perdidos.

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