A opinião de ...

A arquitectura transmontana a gostar dela própria – Vernáculo

Aquilo que é próprio de um país a que pertence, ou que se expressa de modo rigoroso e sem incorrecções, diz-se ser vernáculo. Em latim, a expressão refere-se a escravo nascido na casa do amo, doméstico, de casa. Não podia, portanto, haver termo mais feliz para identificar a arquitectura a que me tenho referido - algo de casa, desprovido de estrangeirismos, que é nosso. Mas a identificação com o que é nosso, não passa apenas pelo uso de materiais locais e de técnicas tradicionais de construção. Passa por uma identificação cultural, alicerçada em séculos de aprendizagem e práticas comuns, que não acompanha os ciclos das modas e se apresenta quase imutável, sem capacidade ou margem para melhoria, porque serve o seu propósito na perfeição, como refere Bernard Rudofsky no seminal livro “Architecture without architects” de 1964.
Ao contrário da arquitectura dita canónica, que enfatiza o papel do arquitecto na realização de uma determinada obra, a arquitectura vernácula acentua a comunidade, que partilha as mesmas experiências e herança cultural. Define-se pelo uso de matéria-prima local e por colaborar com a natureza, em vez de a tentar conquistar. Está perfeitamente adaptada à escala humana e à dos animais que partilhavam o espaço da casa do agricultor e, mesmo sem o recurso ao desenho como ferramenta, não é, evidentemente, destituída de projecto. Por outro lado, numa época em que as alterações climáticas surgem na primeira linha das nossas preocupações, a arquitectura vernácula de Trás-os-Montes contém lições valiosas para satisfazermos as necessidades do presente sem comprometermos as das gerações futuras – as comunidades locais tinham perfeita noção do necessário equilíbrio entre economia, sociedade e ambiente para o seu bem-estar.
Alguns dos arquitectos mais reconhecidos a nível mundial – o chileno Alejandro Aravena, Francis Kéré do Burkina Faso (Prémios Pritzker em 2016 e 2022, respectivamente), ou a paquistanesa Yasmeen Lari (Prémio Carreira na Trienal de Arquitectura de Lisboa deste ano), têm evidenciado de forma categórica a importância social da arquitectura, o seu vínculo às comunidades locais e, na sua prática profissional, têm feito a síntese que a actualidade dos territórios onde intervêm necessita. Mesmo em situações de pobreza, de falta de condições de segurança e contra todas as expectativas, a arquitectura pode ter alguma coisa a acrescentar, desde que consciente de que a sua legitimidade reside na comunidade. Mais do que apresentar respostas definitivas, os três arquitectos souberam colocar as perguntas certas e são, por essa razão, verdadeiramente inspiradores.
O que se vê da prática actual da arquitectura em Trás-os-Montes, onde predominava um princípio doméstico, é uma colecção de gestos e tentativas de importação de formas e modelos externos que, aos poucos, vão degradando as características morfológicas e tipológicas da região. Infelizmente, os sucessivos instrumentos de gestão territorial, não têm mostrado capacidade para contrariar essa propensão para a degenerescência. Serão os arquitectos da actualidade, capazes de incorporar o espírito local na sua síntese disciplinar e, através do desenho, redefinir uma arquitectura inquestionável? Ou deveremos deixar essa tarefa para os fazedores dos vários ofícios que, à distância, vão uniformizando e simplificando o gosto e a imagem do território? Há aqui muito espaço por ocupar, para além dos normativos legais ditados por Lisboa ou Bruxelas. Mas, esse espaço, não é uma folha em branco.

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