A opinião de ...

Clarificação

Obviamente que é imperativo que a atuação de qualquer membro do Governo e, por maioria de razão, quem o chefia, seja clara e, quando o não for, por si mesma, tenha de ser clarificada. Mas, a clarificação não passa por bombardear o visado com novas perguntas, após cada pergunta respondida, com pedidos de esclarecimento a cada aclaração apresentada e, muito menos, embrulhar tudo em várias insinuações, mais invasivas e perniciosas do que qualquer acusação concreta por não afirmando impedir qualquer desmentido. Clarificar é expor, com nitidez e sem ambiguidades o verdadeiro fundamento do que se pretende esclarecer. O que, convenhamos, não se obtém com o questionamento em catadupa crescente nem, por maioria de razão, com uma qualquer Comissão Parlamentar de Inquérito como ficou sobejamente demonstrado (se alguma demonstração fosse necessária) na última em que o texto primeiramente apresentado pela relatora de serviço, provavelmente já estaria escrito antes mesmo de aquele se ter iniciado ou, pelo menos, nada foi acrescentado às teses que deram origem à sua constituição. Mas, obviamente, constituiu uma pedra no sapato do Presidente da República, alvo assumido do partido que, potestativamente, a convocou, levando-o a queixar-se em jantar diplomático. Facilmente se adivinha o que aconteceria com o governo, aprisionado nas teias insidiosas de quem, mais do que o benefício público procura a descredibilização dos seus opositores políticos.
Mas, então, não é justo e adequado que os cidadãos sejam informados, esclarecidos e elucidados sobre o comportamento de quem os governa? Claro que sim, como comecei por escrever. Mas sobre o essencial e não sobre o acessório.
Montenegro cedeu as suas quotas à mulher. Mas, segundo especialistas (e, facilmente entendível por qualquer cidadão minimamente informado) tal cedência não retirou a empresa da sua esfera patrimonial. Claro que não. Porém, a questão que se coloca é: o crime do Primeiro-Ministro é patrimonial? Para se chefiar o Executivo não se pode ter património? Obviamente que o caso não é esse pois, se assim fosse, seria praticamente impossível formar governo, em Portugal. Mas se, pelo contrário, o que está em apreço é avaliar a exclusividade do Luís Montenegro, nas suas atuais funções, pois bem, essa situação resolve a questão porque ao ceder as quotas afastou-se da gestão empresarial. Formalmente, claro. Porque informalmente é impossível garanti-lo para Luís Montenegro, Pedro Santos ou qualquer outro candidato que tenha património empresarial no seu agregado familiar ou de amizades.
Quanto à “recondução” da lista da AD pelo distrito, depois da demissão do anterior Secretário de Estado, parece-me perfeitamente natural. Por duas razões: não há razão nenhuma para que quem se tenha afastado de uma qualquer profissão, por incompetência, falta de jeito ou imprudência, não esteja habilitado para exercer qualquer uma outra; se não houvesse eleições antecipadas, Hernâni Dias continuaria, calma e pacificamente, a ocupar o lugar conquistado na Assembleia da República.
O perigo, como muito bem alertou o insuspeito Manuel Alegre, não está na empresa do Montenegro, pelo contrário na sua substituição à frente do governo por alguém que não respeite a linha vermelha do “não é não”. A reunião, não anunciada nem esclarecida, de Moedas com Ventura, em Belém, a seguir ao Conselho de Estado, não augura nada de bom.

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