A opinião de ...

Está tudo bem!

“Está tudo bem!” escreveu Donald Trump no twiter depois da “bofetada” que o regime iraniano entendeu “dar” aos Estados Unidos da América depois de o presidente norte-americano ter mandado abater o general Qasem Soleimani.
No ataque de retaliação dos aiatolas não morreu nenhum soldado americano, por isso está tudo bem!
Ao mandar matar um alto dignitário de um Estado Independente, Trump, com a sua habitual diplomacia e sensibilidade, atirou com um fósforo para dentro do paiol que é o Médio Oriente. Mas, com isso, desviou as atenções dos órgãos da comunicação social das crescentes e graves acusações no âmbito do processo de destituição de que está a ser alvo. Por isso, está tudo bem!
O Presidente dos Estados Unidos não é juiz, não tem formação jurídica, mas ajuizou que a morte do general iraniano se justificava por ser a maneira mais prática, imediata e assertiva de proteger os interesses americanos e, por isso, está tudo bem.
É verdade que, em setembro de 2001, altos funcionários americanos, mandatados pelo presidente deste país, reuniram-se com diplomatas iranianos, mandatados por Qasem Soleimani, para colaborarem no derrube dos talibãs do Afeganistão. O fornecimento de armas e (in)formação militar ao grupo iraniano para desfeitearem os guerreiros afegãos que tinham armamento e instrução americana, do tempo em que combatiam a União Soviética, foi do interesse americano da ocasião e por isso, na altura, estava tudo bem.
Também é um facto que essa situação durou pouco pois George Bush rapidamente declarou o Irão como um dos países do Eixo do Mal e a classificação de terrorista do general, ex-aliado, servia os interesses da Casa Branca, naquele momento. Tudo bem, portanto!
Tudo ficou bem, pouco tempo depois quando, de novo, andaram de braço dado as tropas de elite dos aiatolas e do tio Sam, no combate aos Estado Islâmico! Com troca de informações e colaboração apertada.
Ninguém ignora que o acordo com o Irão, obtido por Barack Obama, trocando a anulação das sanções pela desistência do uso bélico do programa nuclear iraniano foi um contributo significativo para o ambiente pacífico no concerto das nações. Tudo bem!
Não é novidade a obsessão do Donald em anular, depois de desdenhar, as maiores e significativas conquistas de Obama. É dos livros da estratégia política: quem não consegue subir mais alto que os seus adversários, pode obter o mesmo posicionamento relativo puxando os outros para baixo. Contra o interesse mundial foi do interesse pessoal do atual inquilino da Casa Branca, rasgar o acordo com Teerão. Foi o que fez. Por isso está tudo bem!
Na sequência da insensata sentença de morte do chefe da tropa de elite persa, por erro, foi abatido um avião civil provocando a morte de 176 iranianos, ucranianos e canadenses, mas nenhum era americano. Por isso, está tudo bem!
Milhares de ucranianos terão morrido na sequência da cativação de centenas de milhões de dólares de apoio, precisamente à Ucrânia, pelo presidente americano para que fosse investigado o filho de Joe Biden e por isso está a ser investigado o que, provavelmente, está na origem da inesperada ordem para que um drone tenha disparado um míssil contra a comitiva iraniano-iraquina. Mas isso permitiu lançar, na opinião pública, a dúvida sobre a honorabilidade do principal candidato opositor ao atual presidente republicano. E isso, queira-se ou não, favorece a recandidatura de Donald Trump. Por isso, está tudo bem!!

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