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Santo Estêvão e, as festas de Inverno

O ciclo festivo de inverno compreende, no Nordeste Transmontano, o período que se inicia no solstício e se prolonga até ao São Sebastião, com maior incidência nos dias de Natal, Santo Estêvão, Ano Novo e, Epifania [TIZA, 2004]. O Santo Estêvão foi dos que mais perdurou na memória do povo [DAS NEVES, 2015].
Estas festividades traduzem bem o conceito de inculturação de S. João Paulo II, o Evangelho que incarnou nas culturas autóctones e, ao mesmo tempo essas culturas foram-se introduzindo na vida da Igreja [S. a, AAS 77 [1985], 779-813], nem sempre de forma pacífica. Mistura-se a fé com os ritos solsticiais Celtas, os costumes Zoelas, as juvenálias, as calendas romanas de janeiro, os usos das Confrarias Assistencialistas Medievais, ou os costumes comunitários agro-pastoris, que descreve Jorge Dias a propósito de Rio de Onor [TIZA, 2013], ou a herança cultural do antigo Conselho e, ao esforço dos homes boos [VAZ, 2019], desde o século XIII [SERRÃO, 1985].
A festa de Santo Estêvão decorre entre duas refeições comunitárias, “a Missa momento alto da festa” [TIZA, 2013] e, a “Mesa de Santo Estêvão”. Na Missa benze-se o pão para de seguida ser consumido na Mesa do Santo. No final da Missa sai a procissão com a imagem de Santo Estêvão, o sacerdote e o povo dirigem-se para o local onde se serve a refeição comunitária. O sacerdote abençoo-a os alimentos, reza pelos defuntos e, o mordomo coloca a imagem de Santo Estêvão a presidir à mesa, numa das extremidades [DAS NEVES, 2015].
Sto. Estêvão em alguns lugares é patrono, da festa dos Caretos, ou dos Rapazes [TIZA, 2013], noutros da mesa do antigo Conselho [VAZ, 2019] do século XIII [SERRÃO, 1985].
Na base da organização está uma mordomia de oito elementos: o juiz, mordomo principal, um primus inter pares, o tesoureiro, o secretário e cinco vogais, os apanha-bancos na gíria do povo, por serem eles que executavam as tarefas mais pesadas, os carregamentos dos produtos e o arranjo da sala de refeição.
Juiz, tesoureiro e secretário, escolhidos entre os labradores abastados e influentes no meio, os homens bons, do tempo dos Conselhos medievais. Homens de posses, que ofereciam o vinho, as batatas, a lenha e o seu transporte e, conferiam dignidade, alto nível, à festa, perante os vizinhos, concorrentes de São Pedro dos Sarracenos e, Alfaião. As mudanças socio culturais esbateram a odiosa estratificação de cargos, mas os mordomos continuam a nomear os novos [TIZA, 2004], assim como a direção da Confraria, enfrentando os cânones vigentes.
A Festa do Sto. Estêvão afirmava o poder institucional masculino, pois só os chefes de família, antigos membros do Concelho, se sentavam à mesa. Depois vieram os rapazes e, só depois, do 25 de abril de 1974, em Samil [VAZ, 2019], por causa de um não me parece bem do C. Abílio Miguel, vieram as mulheres para a mesa comunitária [CELESTE, 2019].

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