A opinião de ...

Breve ensaio a ditadura (imposta) do secularismo

(continuação da edição anterior)
Tudo é permitido, nada é proibido. O reitor da moral não é a lei, mas o desejo. “Ora, se o desejo é a lei surprema, há que evitar o desagradável e assegurar o agradável. (...) Numa palavra, o império do egoísmo. É o paganismo, ou um novo paganismo” (Frei Ignacio Larrañaga).
Esta cultura do ego faz-nos pensar e dizer constantemente que ‘eu é que conto’, que só depende de ti, que és só tu e tu. Quem diz “eu é que sei”, ou ainda, “eu e eu quero isto ou aquilo”, não tem lugar Deus. Isto porque, a fé não é nada mais do que sair de mim, largar-me, morrer para os meus egos mesquinhos, redutores e violentos, e projectar-me em direcção ao outro, em doar-me, em dar a vida por...! Há, portanto, um movimento, constante e permanente, de fuga à dor, mas neste movimento de fuga, abre-se o espaço para o prazer e para a fruição. Onde há fruição do prazer, há centralidade do ego em si. E pior, começamos a olhar o outro como objecto para a minha fruição e se ele não vai ao encontro do meu desejo ou do meu prazer, então, passa a ser meu adversário e não meu irmão. Somos escravos e não livres! Somos escravos dos nossos prazeres, dos nossos medos de perder. A liberdade é doar o dom da nossa vida, é fazer de mim tabernáculo do amor, da presença terna e meiga de Deus, de descobrir o tesouro guardado na alma e partilhar com o outro este mesmo tesouro. Se só penso em mim, como posso doar-me? Por isso, é tão difícil hoje alguém descobrir a sua vocação. Se só pensamos em nós, nunca teremos coragem de sair de nós, de nos libertar destas correntes que nos asfixiam, que nos empobrecem e que nos aniquila, que nos impedem de que o amor ilumine todas as minhas entranhas.
Urge sair de mim. A palavra vocação significa chamamento, não um chamamento em mim, mas de alguém que chama fora de mim. É belo isto: Deus chama-nos a sair tal e qual como o fez a Abraão que o convidou a deixar tudo para ir a uma terra por Ele prometida. Só quem sai, dá espaço a que outro entre, e ao entrar ilumina e dá sentido à vida e à existência. Nesta comunhão partilhada de sair de mim e deixar o outro entrar, nesta dialética doativa faremos nascer em nós e em todos o amor maior, o amor eterno, o amor de Deus.
Uma sociedade sem Deus acaba, inevitavelmente, por se converter numa sociedade contra o Homem. “No fim só resta o nada; e corremos o perigo de nos transformarmos em sombras das nossas próprias sombras” (Frei Ignacio Larrañaga). Com efeito, a afirmação absoluta do ‘eu’ não permitirá nunca um ‘tu’ e, muito menos, um ‘nós’. E sem nós não há amor, não há humanismo nem humanidade.
O vosso pároco, companheiro de viagem e peregrino convosco.

Edição
3781