A opinião de ...

Cabeçudos e Gigantones…

A Feira de Maio, lá no meu longínquo Felgueiras, oferecia-me o Paraíso, o mundo faz-de-conta, a ilusória felicidade. Nesta primeira semana do mês, deixava-me ir na palete multicor que se instalava no velho Campo da Feira, resvés com a casa da família, rente ao meu espaço de brincadeiras, aos nossos muros.
Os carrinhos de choque, o carrocel oito, os matraquilhos, o comboio fantasma, o carrocel em círculo, as cadeirinhas, o poço da morte, o tirinho, o ratinho da sorte, os pirolitos, os confeitos, os chupa-chupa, os foguetes, o circo, e eu com a cabeça à roda, exausto, na cama. Revejo-me nos meus oito anos, de calções e alças cruzadas, com peitilho bordado, um pato risonho e colorido. E lá estava, suado e vermelho, de olhar arrelampado, espavorido, a querer viver tudo aquilo num segundo, engolir o êxtase de um só trago. De cabelo à escovinha com peido do lado direito, circulava com à vontade por tudo que me deixava passar e o bando, meu grupo, contribuía-mos para a poeirada que dali se agigantava.
Hoje, a esta distância, sinto o privilégio daqueles tempos, a liberdade vivida, a partilha desprendida e geracional, saltar e correr sem mãos-dadas, sentir-me seguro por entre a multidão despida de atenção, alheada e descontraída.
As noites amenas, abrilhantadas pelo chilrear constante e agudo das andorinhas, emprestavam à Feira condimentos mágicos, de saudade na antecipação, eram cenário para conversares e cumprimentos familiares e de amigos nestes encontros sempre adiados pelos afazeres da vida.
Quando os foguetes estoiravam com cadência e sonoridades conhecidas, em código, o povo e a moçarada sabiam o que ia acontecer. A rapaziada corria para um lado e os adultos, meu pai incluído, para outro. Bombos, flautas, clarinetes, trompetes, ferrinhos, pandeiretas e outros instrumentos de sonoridades diversas, alinhavam-se atrás dos portões da casa do Sr. Aniceto, dono da Banda, bem ali ao lado da nossa casa.
Quando a Banda saía, alinhada, limpa, hirta e aprumada como a tropa, já nós guerreávamos pelo melhor espaço, bem atrás, aos pulos e imitando infantilmente os trejeitos daqueles ídolos. Bem à frente, mais que compenetrado, o Quinzinho do Sr. Aniceto, o maestro, no seu momento de glória, recebia ovações dos conterrâneos e forasteiros, dali ao Coreto era só a nossa rua, por detrás da Câmara, e à espera, os adultos aguardavam em silêncio religioso, o momento mágico de lazer, de erudição musical.
Mas eis que o rufar de bombos ecoavam vindo do lado do Grémio e, por entre as imponentes tílias rodopiavam figuras fantasmagóricas, umas enormes outras baixotas, umas magras outras gorduchas, umas de olhar esperto, outras sonsas, tais como os palhaços ricos e pobres.
Agora, após eleições eupoeias, com estes resultados, com esta abstenção, vistoriando a campanha, recordando episódios, decifrando o grotesco discursivo, o burlesco de algumas figuras, suspiro de vergonha e revolta, descubro os elevados e os bacocos, os actuais Cabeçudos e Gigantones…

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