A opinião de ...

Carnaval todo o ano

O título desta crónica é o de uma poesia do grande poeta brasileiro Manuel Bandeira, o grande modernista sofre do mal do esquecimento tal como inúmeros poetas de igual talento porque ler no entender de muita gente dita culta é maleita custosa e obriga a pensar. Por isso mesmo pense-se no grau de iliteracia reinante apesar dos burocratas culturais acenarem com estatísticas de vendas as quais englobam as provenientes dos dos livros de apoio escolar e correlactivos.
Os foliões arregimentados nas Escolas passeiam-se em filas de obrigação, rabiscam as faces, na esmagadora maioria ninguém lhe explica a origem do Entrudo, muito menos a evolução dos ditames carnavalescos ao longo dos séculos. Mercê da propaganda televisiva as nossas comunidades pensam no Brasil quando de fala em Carnaval, por isso mesmo a representação macaqueia o samba, os desfiles e bródio complementar.
Neste Carnaval todo o ano triunfa o mimetismo, mirra a criatividade, as televisões empenham na exibição da cópia, do todos dizerem o mesmo, de imperar a farândola envernizada num arremedo grotesco do Maria vai com as outras, pois no Entrudo passa tudo, daí os esforças dos títeres no sentido de o serem debaixo do manto da seriedade quando na verdade não passam de bonecos articulados que faziam as minhas delícias no período das Festas da cidade bragançana, alguns ainda se lembram do Xarabaneco de voz riscante a dizer: toma, toma, toma no embalar de um pauzinho.
O reputado baiano Jorge Amado escreveu em 1931 “O País do Carnaval”, no lado de cá do Atlântico os portugueses nesse ano festejaram os dias de folia em plena Ditadura Militar, antecipando os lustrosos – estão em todas – de agora, os adesivos davam hossanas ao provincianeiro de Santa Comba, bailavam o saricoté nos clubes recém baptizados pois a Ordem nova assim o determinava.
São milhentas as obras de todos os matizes inspiradas no Carnaval, no entanto, o facto de a criatividade implicar estudo e explanação das ideias muitos portugueses voam para o mítico Brasil, os problemas surgem na altura de pagarem o hotel e/ou os custos da satisfação de fantasias apagadoras da real/realidade quotidiana em Portugal. Diz o ditado “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhes vem”. E, vamos vendo os processos a correr e meninos e meninas a aprender, aprendem os manuais de justificação de súbitas fortunas, se assim não acontece sentam-se no banco dos réus uma vez, levantam-se a seguir deixando correr o marfim na esperança de vingarem recursos e outras manobras dilatórias de forma não ser beliscada a justa fama de país de Carnaval.
Vá-se lá saber a razão (alguns sabem) de o tema da Eutanásia voltar ao bulício político, mal foi agitada a possibilidade de ser levado a cabo um referendo boa parte dos partidos levantaram o pendão contra esta prática democrática de auscultação dos portugueses. E, impõe-se a pergunta: de que têm medo os opositores ao referendo?
A resposta enviesada, envolta em diferentes panais argumentativos não disfarça os receios de um desaire, estão escaldados devido ao rotundo não no caso da regionalização (no Norte, há bem pouco tempo ensaiaram uma golpada contra a constituição), por isso mesmo a trouxe-mouxe toca a apressara votação e…depois a ver vamos! Uma mascarada de alto coturno e desprovida da mínima seriedade. Depois admiram-se da ascensão do Chega nas sondagens!
Nos anos quarenta e cinquenta do século passado existia em Bragança um grupo estritamente citadino conhecido e temido face às suas tomadas de posição a ridicularizarem os malefícios provocados por agentes do poder, enfatuados de brasão e pouca comida quente, senhoras de rouge a esconder as rugas e batom lustrador de lábios gretados, enfim…os dos penduricalhos alvo da malícia humorada do sábio Abade de Baçal. Nem o Senhor Queiroz, nem os manos Casão, menos ainda o emérito Padre Francisco Alves podem ajudar os filhos de Bragança a escovarem rispidamente o burgo do Braganção, bem menos os concelhos vizinhos. Novas e mandados do Nordeste anunciam carnavalices de quilate partidário naquelas bandas. Aguardemos.

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