A opinião de ...

Inteligência Artificial

Durante anos procurei perceber os rudimentos da inteligência artificial. Só queria ultrapassar os ensinamentos contidos no manual Bonifácio sobre o acto e função do pensar ou ir para lá do enunciado de Descartes – penso, logo existo – que está na base de a pouco a pouco, de degrau a degrau, abrir e estimular a pulsão do amor pela leitura, logo do desejo de a todo o tempo nunca esquecer o valimento da palavra escrita, cerzida diariamente, emendada, contida ou loquaz, calma oi agressiva, enfim: a palavra obra dos humanos em todos os sentido s…da palavra.
Durante esses anos li centos livros de ficção científica, guardo algus editados pela Europa/América em virtude da estuante beleza das suas capas, revi várias vezes o fil de Mestre Kubrik, 2001 Odisseia no Espaço, nesses visionamentos soltei imprecações contra o caprichoso e malvado computador, no entanto, o meu cérebro aquietava-me: tudo aquilo era ficção, colocando de lado as premonições de Júlio Verne, de Huxley, apesar de a sombra da incerteza vir ao de cima depois de reler o brigadista Orwell.
Agora, entendi ter chegado a hora de não conceder atenção às novidades no referente à inteligência artificial, a razão radica-se na essência e não no acessório ficcionado e visto na pantalha, efectivamente a inteligência aí está, poderosa, ameaçadora dadas as múltiplas e mortíferas capacidades para nos provocarem males no corpo e na ânima.
O leitor dirá: estás a exagerar, estás a convencido de os cientistas dessa matérias serem todos adeptos do Mal, pensas nos terrores cibernéticos, nas trevas a tomarem conta dos espíritos, nos loucos ao modo dos pilotos que deliberadamente atiram os aviões contra montanhas, abismos e edifícios. Sim penso nisso tudo, porém a particularidade de os computadores gerarem o caos sem a mão humana, a capacidade dos herdeiros do putativo ogre da Odisseia no Espaço herdarem (é possível) os nossos defeitos fraticidas e destruírem tudo quanto nós criamos e inventámos, sendo a excepção eles próprios.
Tudo quanto ouvi, li e vi nos últimos meses obriga-me a desistir de estudar os referidos rudimentos da dita inteligência, vou entregar-me ao fatum dos gregos pois nada vai parar a ânsia dos homens no percurso científico imanente ao desejo de fabricar réplicas de nós mesmos providos de funcionalidades conforme lhe der na real gana, porém desprovidos do fundamental a ânima que motivou doutas explicações por parte de São Tomás de Aquino.
Não precisamos de vir um sábio de óculos em riste explicar-nos as consequências da aplicação do cogito artificial para percebermos o risco acordarmos afogados em lixo, seja escatológico ou não, soterrados e a respirar lixo chegado até nós através das máquinas de computação, totalitário, só nos resta fenecer porque os Homens não tiveram o cuidado de susterem os ímpetos da irracionalidade artificial. O Ícaro tentou voar até ao Sol, a cera das asas derreteu, ele precipitou-se nas águas azuis cobalto daquele mar ora chamado com o nome dele, desafiando-nos a reflectir sobre os perigos a ambição desmedida. Cada qual que seja grego à sua maneira. Mas que o seja!

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