A opinião de ...

O 1º de Dezembro

A importância do 1º de Dezembro permanece hoje inquestionável para qualquer entendimento da nossa História, mormente quando a questão da independência da Catalunha está no auge e os fundamentalistas identitários encafuados num visceral ódio ao Homem branco a levá-los à não boa reflexão relativa ao entendimento da tomada de atitudes em função, da época e da visão estratégica do poder relativamente a povos desconhecidos ou vaga e medrosamente intuídos.
O 1º de Dezembro merecia ser assinalado de forma objectiva aproveitando-se o acontecido da explicação do conceito de autodeterminação dos povos, da exaltação do respeito da opinião contrária, em suma do insuperável valor da liberdade. Infelizmente, assim não acontece. Há quem discuta seriamente a efeméride (poucos), há quem pretenda enovelar-se num desajustado ajuste de contas com o passado, há quem, pura e simplesmente só lembre o ócio corporizado no feriado. E, há Bragança.
Tenho abordado a data em Bragança colocando a ênfase nas jocosidades e outras facécias prolongando a tradição ancestral influenciada pelo livro do transmontano Trindade Coelho, In Illo Tempore, o livro de memórias do Pad’Zé famoso entre os famosos veteranos coimbrões, o nosso conterrâneo Santa Rita Xisto, Almeida Santos e muitos mais. No entanto, a comemoração da data da restauração da nacionalidade levava os alunos liceais e alguns professores a esforçarem-se no sentido de a engrandecer através da realização de vários actos culturais a perdurarem na minha memória.
Aprendi a gostar de Gil Vicente antes de o estudar na Selecta Literária, aprendi a interessar-me pelo teatro clássico depois de ver e ouvir Antígona no palco do velho Camões, recordo-me da memorável actuação dos Jograis de S. Paulo no mesmo palco após uma homenagem do TEUC ao notável teatrólogo Paulo Quintela, uma lápide colocada na casa onde nasceu assinala o acontecimento (espero que seja preservada), recordo-me do entusiasmo e espírito de entrega do Fernando Pires (Pássaro) que bem merece uma homenagem, sem esquecer Fernando Subtil, e no capítulo das recordações o facto de o cortejo cívico nunca se esquecer de ir até à residência do Dr. Adrião Amado e gritarem efe-erre-às de saudação ao pedagogo republicano.
Bem sei, alguns antigos alunos continuam a rumar a Bragança num acto de matar saudades, muitos encanecidos, avós babados a exibirem fotografias dos netos nos telemóveis, talvez soltem lágrimas, ais relativamente ao passado bisonho na cidade então enfunada em si mesma e queixumes referentes ao período condor – dor disto, dor daquilo, dor daqueloutro –, num misto de resignação e mansa raiva contra o compasso temporal. É a vida!
E, os estudantes de agora como entendem e festejam (se festejam) o 1º de Dezembro? E as centenas de estudantes estrangeiros recebem ensinamentos acerca do acontecimento? E explicam-lhe a cronologia histórica do antes e depois da defenestração de Miguel de Vasconcelos. O historiador José Monteiro é especialista na matéria. Não coloco outras interrogações, não vou obter respostas. Xarabitá-tá!

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