A opinião de ...

Não digam que eu não tinha avisado!

Não é nada agradável ouvir esta frase. Quer dizer que errámos quando alguém nos tinha indicado outro caminho com toda a certeza mais acertado que o que tomámos como certo! Mas também não é uma frase agradável de proferir. Pelo menos no que me toca. Embora estivesse genuininamente convencido do acerto do meu “conselho” preferia nalguns casos, como o que me traz aqui, estar errado. Por isso esta crónica é uma crónica adiada. Há muito que andava para a escrever, mas custava-me fazê-lo, na esperança que afinal o meu aviso não fosse tão acertado ou que, pelo menos, não tivesse as consequências que, logo na altura, me parecia que iria ter. Notícia recente do Expresso, com chamada à capa veio confirmar inexoravelmente os meus piores receios. Diz o semanário que “Farmácias deixam esgotar medicamentos baratos para crianças” e reafirma “Farmácias sem medicamentos pediátricos mais baratos”.
A propósito dos medicamentos genéricos e do pagamento nas SCUT dissera eu que temia que a pressão para baixar as margens das farmacêuticas em vários medicamentos sendo uma medida agradável no curto prazo (e eu sempre defensor da introdução dos medicamentos genéricos) pudesse, no futuro, trazer uma fatura muito desagradável, tal como acontecia (e acontece) com as SCUT onde a gratuitidade incial nos está a ficar tão cara no presente e nos vai custar ainda mais no futuro.
Mas se a notícia é recente, como é que eu afirmo que tenho andado a adiar esta crónica? Porque já há alguns meses atrás um amigo meu que conhece muito bem o mercado do medicamento, me confidenciara que as multinacionais estão já a “desleixar” o mercado português por ter deixado de ser interessante para vários dos seus produtos. Esta confidência estava em linha com o que eu pensava, contudo, a evidência ainda não estava demonstrada. A carência de alguns medicamentos era assacada exclusivamente à situação financeira de algumas farmácias, sendo certo que esta também derivava do esmagamento das margens estabelecido administrativamente. O dramático da notícia é que, para além de começar a atingir os mais fracos e desprotegidos (crianças que não acedendo aos medicamentos mais baratos não têm possibilidade de os substituir por outros equivalentes mais caros), evidencia um caminho que irá aprofundar essa tendência e o receio de que o embaratecimento dos medicamentos nos venha a sair muito caro é cada vez mais provável. Inevitável, diz o meu amigo e eu, com mágoa, concordo.
Outro exemplo do “não digam que eu não tinha avisado” passa-se com o movimento “Que se lixe a Troika”. Não o fiz publicamente mas, em privado, várias vezes alertei que a apropriação por este movimento do sucesso que foi a manifestação anti-TSU era ilegítimo e que se os promotores queriam manter a ilusão que foram eles que levaram tanta gente à rua, o melhor que tinham a fazer era evitarem a prova dos nove. Um dos maiores erros dos “líderes” é pensarem que a adesão circunstancial a causas e movimentos se faz numa lógica de entrega de vontades a quem tem a possibilidade de estar no local certo, na altura certa. A maioria das lideranças poíticas é circunstancial e, como tal, limitada no tempo e nos objetivos. A assunção que a adesão a uma causa amarra os aderentes a todas as causas que os “lideres” promovam é um erro crasso. Quase infantil. A presunção que é assim, costuma ser fatal até pelo efeito absolutamente oposto que gera. Eu participei na manifestação anti-TSU mas não conheço os promotores e do que sei, do seu pensamento, em pouco me identifico com eles e muito menos com as alianças que, a partir daí, resolveram fazer! Conheço sim muitos que pensam de igual forma. Participei na dita manifestação por ela e não pela promoção que dela fizeram. Não participarei noutra só porque é promovida pelas mesmas pessoas. Pelo contrário, noutra que pensasse participar, se for promovida pelos mesmos, provavelmente não o farei. E como eu, muitos.

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