A opinião de ...

QUEM DISSE QUE ESTE ANO NÃO HÁ SEMANA SANTA?

Sim, quem disse que, este ano, Cristo não irá sair à rua? Pura mentira.
Só que, este ano, quem o quiser encontrar, para além de muitos outros lugares, terá apenas que o procurar vestido de azul ou de branco, nos corredores, nos quartos, nas enfermarias ou nos serviços de apoio dos nossos hospitais .
Como à mais de dois mil anos no Jardim das Oliveiras, Jesus Cristo volta a cair sempre que um médico, um enfermeiro, um auxiliar ou um administrativo cai desfalecido e exausto por dias de trabalho sem conta e sem descanso e turnos de serviço sem fim, em hospitais superlotados ou improvisados, lutando e teimosa e desesperadamente, não raro sem as condições minimamente exigíveis, para enfrentar e vencer os desafios dramáticos com que estes profissionais da linha da frente são confrontados, indo muito para além dos limites da resistência humana com risco da própria vida, para salvar da morte as vidas de todos os seus doentes. Como Jesus Cristo a caminho do calvário, também eles choram e caem quando a morte lhes rouba algum dos seus doentes e, como Cristo, se reerguem para continuarem a sua missão.
Naturalmente que, pelas condições impostas pela situação que todos estamos a viver, este ano não veremos passar nas nossas ruas as tradicionais procissões com a magnificência das vestes litúrgicas, a grandiosidade das imagens sagradas, a riqueza policromada das vestes dos penitentes e dos figurantes, nem ouviremos o murmurar piedoso das preces dirigidas ao céu, rezar as ladainhas nem a música cadenciada e dolente das nossas bandas filarmónicas.
É inegável que este romper abrupto com tradições seculares,(que, por vezes nem passavam disso mesmo) irá gerar sentimentos de perda difíceis de ignorar. Contudo, se soubermos aproveitar as oportunidades criadas por esta situação, da qual ninguém estaria à espera, mais do que recordar os mistérios da paixão e morte de Jesus Cristo,( mesmo que em cerimónias solenes, vistosa, espetaculares e muito bem organizadas), somos todos chamados a participar na dor e no sofrimento redentor de Jesus no Jardim das Oliveiras que, neste tempo de tanto sacrifício para tanta gente, volta a sofrer com quem, desprezando os riscos de lutar na primeira linha, e esquecendo-se de si próprio e dos seus, continuam a fazer tudo para minorar o sofrimento dos seus irmãos.
Nunca como agora fizeram tanta falta os “bons Samaritanos” que, nos caminhos desta vida, recolham, amparem e deixem no conforto duma albergaria todos os incontáveis Cristos sofredores, presentes nos desvalidos abandonados da sorte.
Nunca como agora fizeram tanta falta os bons amigos que estão sempre presentes, especialmente no pavor da solidão dos muitos “jardins das oliveiras” deste mundo e, mesmo que todo os outros, à semelhança dos próprios apóstolos, se deixem vencer pelo sono, eles nunca faltam com uma palavra de esperança e de conforto.
Nunca como agora fizeram tanta falta as “Verónicas” para limpar os rostos desfigurados e banhados de sangue dos Cristos sofredores do nosso mundo, os “Cireneus” para ajudarem a carregar a cruz nos caminhos desta vida, os “Nicodemos” e “Josés de Arimateia” para descerem da cruz e tomarem nos seus braços os corpos dos que, neste ritmo alucinante que nos sufoca, ingloriamente vão perdendo a luta pelas suas vidas, as Martas, as Madalenas e as Marias de Salomé para, como fizeram com O Mestre, ungirem com o bálsamo da eternidade os corpos devolvidos à terra.
Porque somos gente de fé e, respondendo ao repto de S. Paulo, acreditamos na ressurreição e na vida eterna, vamos confiar que depois de estarmos junto à cruz da nossa redenção na companhia da “Mater dolorosa”, voltaremos a terita de, jubilosamente, podermos cantar o “Regina celi laetare, aleluia”.

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