A opinião de ...

Deixa-me amar-te até ao fim

O Parlamento Nacional Português, designado oficialmente por Assembleia da República, autorizou-se a despenalizar a Eutanásia. Para isso, incumbiu os deputados nacionais membros da Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias da mesma Assembleia, de integrarem os diferentes projetos aprovados e redigir uma proposta final de despenalização a discutir pelo Plenário de Deputados.
A pressa com que socialistas, bloquistas, panistas e a só Joacine parecem estar para que se dê ordem para morrer e matar indicia que, em quatro ou cinco meses, teremos aprovada a lei que despenaliza a Eutanásia e, com ela, a possibilidade de termos menor despesa em cuidados paliativos, menor despesa a cuidar dos idosos nos hospitais, menor responsabilização dos filhos pelos pais, maior desvalorização do saber e experiência dos idosos, maior irresponsabilidade social, maior desvalorização da vida humana. Tudo em nome do hedonista princípio de viver e morrer feliz. É só isso que conta? E a Sociedade dos FINS ORIENTADORES?
Todos sabemos que as leis têm duas faces: a da proibição e a da permissão. E que a da permissão contorna a da proibição. E que têm duas formas de aplicação: a formal e a informal: «Oh, pá, dá-lhe as drogas, que eu, amanhã, assino a ata. Noutro dia, desenrascas-me tu». Se não há declaração a solicitar a morte, arranja-se. Se o médico não quer assinar a autorização de morte, arranja-se outro médico. Daí ao açougue vulgarizado não levará muito tempo. Como na Holanda, onde já se fala na possibilidade de solicitar a morte a partir dos 70 anos, para todos e todas, e também para os deficientes, estes em qualquer idade. Vai ser um negócio. É o III Reich da solução final aplicado pelos democratas, filhos de Jean-Jacques Rousseau.
Alexis de Tocqueville, ao analisar a democracia americana, entre 1828 e 1833, alertou para o mal principal das democracias e do Estado Social, que seria a estupidificação do espírito das pessoas. A facilidade no acesso aos bens e o gozo dos instrumentos do bem-estar tornariam as pessoas em consumidores dóceis de informação distorcida e em reivindicadoras de concessão e de obtenção de felicidade e de bem-estar fácil. Ou seja, a democracia transformar-se-ia, no futuro, na construção hedonista (prazer) por excelência, onde nada do que é difícil e trabalhoso é admissível porque as pessoas quase só conhecem os direitos. E, portanto, a consequência última será morrer em estado de ataraxia, o estado que os epicuristas gregos designaram por felicidade e por desligar dos problemas da vida.
Tocqueville termina aquela secção do seu livro Da Democracia na América (1836 e 1838) afirmando – cito de cor - que os americanos estão iludidos com a igualdade e estimam pouco a liberdade; e que, enquanto o regime autoritário nos aprisionou o corpo mas deixou-nos em liberdade o espírito, a democracia nos aprisiona o espírito e a consciência amolecendo-nos o corpo.
Para fazerem de nós o que quiserem.
«Não, disse o meu pai no leito da morte, faz hoje 16 anos. «Deixa-me amar-te até ao fim. Só Deus sabe quando devo partir.».

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