A opinião de ...

O farol que nos guia

A pandemia que por estes dias enclausura o mundo ameaça trazer com ela a pior crise económica desde o grande depressão de 1929.
Uma minoria de atividades económicas tem passado incólume, e até beneficiado, com estes tempos sombrios.
No meio do caos em que se tornou a vida de muitos, com hábitos e rotinas virados do avesso, as notícias, os jornais, as televisões e as edições digitais dos jornais tornaram-se num refúgio para grande parte da população, que há muitos anos não estava tão ávida de estar informada.
Ao sinal de um grave problema, as pessoas acorreram para os jornais, cujas edições digitais vão batendo recordes de visitas.
Por cá, o Mensageiro de Bragança não é excessão. É, até, um exemplo, com vários leitores à espera, ansiosamente, da atualização diária do ponto da situação do distrito, que há um mês vimos fazendo ao final de cada dia.
Há muitos anos que o papel dos jornais não era, ainda que insconscientemente, tão valorizado. Apesar de todas as redes sociais, das salas de chat, da circulação voraz de informação pelos dedos de cada um, no telemóvel ou no pc, a necessidade de se estar bem informado pesa e as redes sociais são cada vez menos uma fonte credível.
É preciso quem verifique, valide, explique e contextualize aquilo que por lá vai aparecendo, que sirva de farol da verdade.
O tempo atual não é dado a experimentalismos.
Quanto mais informada estiver uma sociedade, mais esclarecidas serão as decisões que toma.
E terá sido a falta de informação que levou o presidente da Câmara de Torre de Moncorvo a decidir comprar testes sorológicos que, sendo certificados, não se aplicavam ao momento atual da crise, mas terão toda a utilidade no futuro. Não foi caso único. Na Covilhã, a Câmara adquiriu instrumentos de medição de temperatura na esperança de que fosse mais fácil diagnosticar pessoas infetadas. Afinal, já gasto o dinheiro, verificou-se que os aparelhos servem para tudo menos para medir a temperatura corporal em seres humanos, pelo menos de forma fiável.
Por cá, Nuno Gonçalves sentiu necessidade de publicar um vídeo no site do município a tentar justificar o que já pouca justificação teria (o comunicado da ULS em resposta foi prova disso mesmo). Em vez do passo atrás que poderia servir para ganhar balanço optou pela fuga para a frente. Ainda assim, teve o mérito de reconhecer, ainda que contrariado, que o Mensageiro é o jornal mais lido do distrito. Equivocou-se foi quando confundiu este jornal sensacional com um qualquer sensacionalista.
Informar é um direito e, neste caso, o nosso dever. E o cidadão ser informado é mais do que um direito consagrado na Constituição.
Admito que às vezes possa haver alguma dificuldade com estes conceitos porque, afinal, o 25 de abril foi só há 46 anos... E todos erramos, como se viu esta semana com o oráculo da TVI.
A questão é que a falta de informação leva a tomadas de decisões erradas, que resultam, num caso de emergência nacional, não em perdas materiais mas em perdas de vidas humanas. Num estado de doença, tempo não é dinheiro, é vida. E depois, quem se responsabiliza?
Os jornais não se podem furtar à sua responsabilidade de inquirir, questionar e contextualizar. Quanta mais informação andar à solta, maior a necessidade de um farol que nos guie. E sem imprensa, sem imprensa regional, não é só a democracia que definha mais um bocadinho... é todo um ecossistema económico, social e político. Por isso, temos todos o dever de os proteger. Para o bem de todos.

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