A opinião de ...

O respeito que devemos ter por nós e pelos outros

Nesta edição, o Mensageiro leva os leitores a uma viagem aos bastidores do combate à covid-19, a doença que entrou no léxico mundial como uma peste que há muito não há memória. Pela primeira vez, um jornal do distrito de Bragança teve acesso aos locais e aos profissionais que, diariamente, estão no epicentro da luta a esta pandemia que ameaça tolher-nos.
Apesar de os efeitos visíveis não serem tão chocantes como os de outros vírus, como o ébola, por exemplo, o novo coronavírus foi suficientemente impactante para confinar grande parte da população mundial às suas casas.
Talvez pela leveza dos sintomas de muitos dos infetados, muita gente ainda não percebeu a gravidade da situação atual e as consequências dos seus atos para a saúde pública.
Mas enquanto uma mão-cheia de céticos continua a fazer o seu dia a dia como se não houvesse amanhã, muitos profissionais, de médicos a assistentes operacionais, passando por enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos das mais diversas especialidades e seguranças, continuam a arriscar, diariamente, o seu bem estar e o seu direito a uma vida familiar, a estar com os filhos, em prol de todos para que todos tenham um amanhã, e dias seguintes, risonhos e com saúde.
Apesar de os efeitos devastadores visíveis noutros países, como Espanha ou Itália, não terem chegado ao Nordeste Transmontano em igual medida, a tensão permanente que se vê nos olhos e nos gestos de quem diariamente cruza as portas de um hospital na região são suficientes para constatar que não se trata de uma brincadeira nem de uma constipaçãozita.
Após semanas de confinamento, o final do estado de emergência e o sol que se fez sentir no início da semana trouxeram muita gente de novo para as ruas.
Se a economia - e todos dependemos da economia - precisa de movimento para funcionar e fazer andar, é altura de todos sermos responsáveis, por nós, pelos que nos são próximos e por todos os outros, a começar pelos que cuidam de nós.
No início da semana houve casos de pessoas impedidas de entrar em estabelecimentos comerciais por se recusarem a utilizar máscaras, algo que deverá passar a ser obrigatório pelo menos nos próximos meses. Um pouco à semelhança do que aconteceu com a obrigatoriedade de utilizar cinto de segurança, uma medida que primeiro se estranhou mas depois se entranhou.
Neste caso, não se trata (apenas) de cumprir uma obrigação legal mas de um dever cívico, de nos protegermos a nós e aos outros. Para que possamos todos continuar a ter a liberdade em sociedade que demorou anos a conquistar.

É nesse sentido que se torna lamentável o que aconteceu em Lisboa no 1º de maio. Respeitar a data não significa desrespeitar os outros e o esforço dos trabalhadores de saúde, ainda que a coberto das exceções legais. Porque a proibição de circulação entre concelhos não se trata de um capricho governamental, tem uma razão de ser e essa razão é a proteção dos cidadãos, de todos os cidadãos. Porque, apesar das exceções (como a que permite a circulação de sindicalistas), não há cidadãos que sejam mais iguais do que outros. Não querer perceber isso é não respeitar o direito que todos os trabalhadores têm de regressar o mais rapidamente possível à sua atividade normal. Sem constrangimentos nem confinamentos.

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