A opinião de ...

Confesso que me enganei... Confesso!

Em meados do século passado, o almirante Américo Tomás, o então “ venerando” presidente da república, numa das suas monocórdicas comunicações, classificou a situação do país como “uma grande tontaria”. A dar crédito à insuspeita opinião do atual presidente da república, por certo que nunca sonharia que em pleno século XXI, uma situação de pandemia global como a que se abateu sobre a terra, voltaria a manifestar-se igual, se não pior, uma nova fase de tontaria nacional.
Mas as coisas são o que são, competindo-nos extrair delas as devidas ilações.
Segundo a sua raiz etimológica, “tontaria” é um ato de pessoa tonta, enquanto que “tonto”, do latim “attonitu” quer dizer demente, tolo, ou perturbado das faculdades metais.
É evidente no sentido destas palavras uma preocupante coincidência com a situação atual do nosso país, bastando para isso refletir sobre alguns dos acontecimentos mais relevantes da vida política deste final de novembro, como sejam a discussão na especialidade e a aprovação do Orçamento do Estado para 2021, a sobranceria da realização do congresso do PCP, não esquecendo a lamentável tragicomédia em que transformaram as notícias sobre a chegada eminente das vacinas anti COVD-19 que, de mal preparada, cobriu de ridículo a maioria dos intervenientes, e lançou sobre a população enorme confusão e uma onda de desconfiança e descrédito que, no mínimo, devia fazer corar de vergonha todos os seus intervenientes. Mas, dignidade e vergonha… isso são contas de outro rosário!
Da discussão e aprovação do Orçamento de Estado na especialidade, tanto da atuação do Governo, como das oposições, objetivamente, restou apenas uma mão cheia de nada e a perceção clara da inutilidade absoluta da atividade de toda aquela gente,( que até nem é nada pouca) reunida tantos dias no conforto do palácio de S. Bento. Se algum mérito houve, foi a perceção de um governo perigosamente só, com sinais iniludíveis de desgaste e de cansaço, a tentar agarrar-se à primeira tábua de salvação que lhe aparecesse, e duma oposição narcisista, olhando cada qual para o seu umbigo e para os seus interesses imediatos, sem qualquer interesse em evitar o naufrágio e, perante a gravidade da situação, sem capacidade nem interesse em ser governo e saltar para a frente para segura o leme da embarcação.
Quanto à aplicação da tão esperada vacina, a intervenção de muitos dos responsáveis deste processo, foi de tal maneira desastrada, que o mínimo que seria de esperar, era que pusessem os seus lugares à disposição, evitando expor as mais altas individualidades do país à situação embaraçosa de, quais bombeiros de intervenção rápida, terem de vir a público tentar justificar aquilo que eles sabem que não tem qualquer justificação credível.
Para amenizar tanta desilusão, duas boas notícias “quase” boas: Guimarães “quase” teve as suas Nicolinas e três votos contra deixaram o Congresso do PCP na “quase” unanimidade!
Depois de já ter visto tantas coisas neste país cheguei a pensar que já não haveria nada que pudesse surpreender-me. Perante tais “tontarias”, parafraseando a grande e eterna Amália, “Confesso que me enganei, confesso; Não coro de o dizer, não coro”!

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3810