A opinião de ...

A vida e o tempo, no virar de mais um ano - 1

Sempre que, no fim de cada ano, cai a última página dos calendários que medem o tempo das nossas vidas, enquanto uns, duma maneira mais pragmática, dão graças a Deus pela graça de mais um ano já vivido, outros, talvez mais preocupados por se verem cada vez mais próximos do seu fim de linha, confessam-se amargurados por lhes restar menos um ano para viver, a verdade é que, pensando bem, o tempo é igual para todos e por isso:
- Sem saber como ou para onde, sem dar por ele, nos foge por entre os dedos o tempo que nos parecia eterno e, enquanto tal, nunca mais teria fim.
- Toda a luz lânguida e passageira dos fins de tarde, é sempre engolida pela negritude da noite.
- As semanas passam num ápice, os meses passam a correr e os anos esfumam-se, mais velozes que o vento das noites de inverno.
- Passam 50, passam 80 e mais anos, e com eles, sorrateiramente, é toda uma vida que se esvai para sempre.
- Sem haver nada que os possa trazer de volta para junto de nós, perdemos os nossos amigos e vemos partir os grandes amores das nossas vidas.
- Perdemos o encanto da irrequietude, da traquinice, da candura e dos beijos das crianças que, quais passarinhos nascidos na primavera, logo ganham as suas asas e no princípio do verão, abandonam os ninhos em que treinaram o primeiro bater de asas e, em bandos, procuram nas nuvens o seu destino.
- O turbilhão estonteante da vida, rouba-nos o tempo para admirar a beleza duma flor ou o esplendor duma gota de água límpida atravessada pelo sol.
- Perdemos a dita de ter nascido neste mundo fantástico em que a infinita bondade de Deus nos colocou para sermos felizes e, ingloriamente, desperdiçamos todo o tempo que nos foi concedido para ser felizes, para recordar, para amar e perdoar, para ajudar e ser solidários.
- Por tudo tido isto, enquanto formos donos do nosso tempo, temos a obrigação de viver cada dia como se fosse o último das nossas vidas, disfrutando de tudo aquilo que nos faz felizes, nos dá a satisfação, o prazer e a alegria de viver, nunca esquecendo que o “depois eu ligo”, o “depois eu faço”, o “depois” eu mando”, o “depois se verá”, todos esses depois poderão nunca mais acontecer e que a verdadeira vida é o dia de hoje aqui e agora, e só terá sentido se for vivida intensamente, diria até loucamente, em função da nossa realização como pessoas livres, conscientes e responsáveis perante nós e perante os outros.
Com votos sinceros de um feliz ano de 2021, termino citando o poeta Horácio que nos diz “Faz de cada dia uma pequena vida” e o filósofo Séneca quando nos lembra que: “Em três partes se divide a vida: o passado, o presente e o futuro. O passado é certo, o presente é breve e o futuro é incerto”.

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