A opinião de ...

«Pai, regressa depressa. Temos tantas saudades…

Naquela meia-tarde, o telefone tocou a consumar a angústia dos dias anteriores. F. estava contaminado com o vírus Sars-CoV-2 e sofria de Covid-19. Tinha de recolher ao hospital imediatamente.
L. abraçou-se a ele a chorar como se fosse o último abraço, como se a vida dele estivesse a acabar ali, como se ele fosse fazer uma viagem sem a certeza de voltar ou uma partida para uma guerra onde o risco de morte fosse altíssimo.
A viatura do INEM chegou com aquele aparato de pessoas vestidas com fatos quase aeroespaciais e L teve de soltar o marido para a viagem que ninguém quer fazer. O pior era que ela também tinha sintomas.
Felizmente, os filhos não estavam em casa e não observaram este momento trágico em directo mas, ao fim da tarde, na chegada a casa, não puderam sentir o abraço do pai, um pai sempre presente e organizador de brincadeiras conjuntas e estudo acompanhado. A mais pequenita foi esborrachar o narizito na janela da cozinha porque o vapor de água colado aos vidros impedia uma visibilidade direta para a rua.
Perguntaram à mãe pelo pai. Sentiram-lhe a tristeza mas ela, sem saber o que lhes dizer, guardou para um melhor momento a triste notícia, dizendo-lhes apenas que o pai teve de viajar.
Mais tarde, deitada na cama de tantos sonhos e de tantas ilusões, mergulhada em lágrimas, procurou uma forma de dar a notícia aos filhos e, pior, que também todos os três teriam de fazer o teste à Covid-19 e poderiam estar infetados.
Os técnicos chegaram no dia seguinte para recolher as amostras. Felizmente, não estavam todos infetados mas a mãe estava. O drama agudizava-se e os filhos, de 12 e de 9 anos, poderiam ficar sós em casa. Mas não: era possível a mãe continuar em casa, protegida e isolada, a tomar conta dela e dos filhos, com a ajuda dos técnicos da Segurança Social e dos serviços de saúde.
Em conjunto com os filhos, ia escrevendo cartas que os médicos e enfermeiros liam ao pai, diligentemente e encorajavam a recuperação: «és o melhor pai do mundo. Vem depressa, pai, temos tantas saudades… . Guardamos-te no nosso coração e tu, nosso herói, vais regressar.».
Quando recuperados, todos escreveram às médicas, médicos, enfermeiras, enfermeiros e auxiliares que vos «portastes como guerreiros valentes numa batalha de tecnologia desconhecida e incerta. Nenhum reconhecimento e nenhum agradecimento são suficientes para vos exaltar. Pusestes os vossos maridos e filhos em risco. Sofrestes a solidão e o cansaço, muitas vezes até ao desfalecimento. Muito obrigados.».
Este caso teve um final feliz. E se não tivesse tido? Qual não seria o drama daquelas crianças?!
Caro(a) leitor(a), perante esta história ainda duvida da necessidade de levar a sério a sua proteção contra o SARS-CoV-2 face à segunda vaga que aí vem e face ao descuido que se generaliza?

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