A opinião de ...

Do Aquém para Além…

Esparramado no sofá, desleixado, no poiso que me desconforta. Mesmo em frente, no tampo de um velho e baixo baú, a tecnologia que droga, que mata, que tudo em redor seca, dois venenos, o comando da TV e um smartphone, a rotina que destrói. Hoje vou viajar através da linha do tempo, do passado para o futuro. Avanço pelo virtual, fecho os olhos, rodo ignição da Cápsula Teletransportadora, escolho, e zás, lá vou.
Encontro-me num local de início, de origem, de começo, do obscuro núcleo de um big-bang, dos que, com toda a certeza, fazem nascer. O azul do mar, por ali, inebria, pelo gigantismo cintilante da visão. Vê-se a olho nu, é seguramente porta de entrada e saída, de abrigo e expansão, uma foz em que o mar olha para mim de frente. Na Idade do Bronze, os Celtas, errantes por estes lados, olhando em redor, observando, decidiram fixar-se, na defensiva ergueram um Castro, emuralharam-se, multiplicaram-se e deram nome à povoação que germinava, que vigorosamente despontava. Estou em Cale, lugar de sangue jorrado, vertido em lutas sangrentas, de vida e morte, pela posse de chão estratégico. A prol em crescimento, o exíguo lar, ditaram o espraiar, mesmo ali ao lado nasceu Vila Nova.
Hoje, daqui, agora, enxergo miragens reais, pérolas quotidianas: por detrás da Alfândega do Porto que nunca o foi, mesmo defronte donde me encontro, cais senhorial debruça-se em precipício abismal, num rio heroico e hercúleo, vindo das arribas medonhas do Douro. Os sulistas, os de Cale, os daqui, porque deste lado os barcos encalhavam nas rochas, resolveram construir, do lado de lá, norte, nas águas profundas, o seu porto, o Porto de Cale.
Muito perto donde me encontro, a correnteza separa-nos, avisto local Histórico, após vistoria do Infante D. Henrique que aqui chegou vindo dos Algarves, daqui do Cálem (de Cale), zarparam cerca de 200 barcos, aqui contruídos, e 20.000 homens do exército de D. João I, com o velho D. Nuno Álvares Pereira a bordo, rumo à vitoriosa conquista de Ceuta. Para esta odisseia contribuíram, para sustento da armada, com as melhores carcaças de porco e bovinos, ficando com as vísceras, os desprendidos nortenhos, os Tripeiros. O objetivo da operação Ceuta, domínio comercial da zona, fracassou em toda a linha por alteração das rotas, vexando os portugueses a “ver passar os navios”.
O que restava da muralha do Castelo, foi reduzida a escombros juntamente com a artilharia do absolutista D. Miguel I em guerra fratricida pelo trono, com seu irmão D. Pedro IV aquando do Cerco do Porto. Mesmo em frente, nos terrenos do hoje Palácio de Cristal, na borda da escarpa, existia Grande Pinheiro e depois uma Torre Militar (antes do atual farol de Felgueiras) que guiavam os navios para o Porto de Cale. Neste local assentou a artilharia D. Pedro IV, liberal, para dar como finada a investida do irmão. Para memória futura, desta data, no Porto, um Bairro Popular e uma Igreja receberam o nome de Vitória.
Estou em Cale, colada a Vila Nova, em Vila Nova de Gaia, no morro do outrora Castelo de Gaia. Lá em baixo, em frente, vejo as águas negras, profundas, do Porto de Cale, potenciador dos nomes da cidade do Porto e de Portugal, nosso País.
Chão Histórico, este, que nos conta Do Aquém para Além…

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