Escritores de Pedestal – Trindade Coelho
Retomando neste momento o projeto que idealizei de trazer aqui alguns nossos escritores dignos de pedestal (projeto a que darei atenção, provavelmente com algumas intermitências), sinto-me hoje obrigado a falar de um escritor sobre o qual há muito criei uma grande empatia. Trata-se do ilustre transmontano Trindade Coelho, nascido em Mogadouro a 18 de junho de 1861. Além de grande contista do ambiente rústico, e de enorme capacidade de trabalho, foi um lutador, um inconformado com a vida, incorruptível, rigoroso cumpridor da lei, amigo de ajudar o próximo, preocupado com o ensino do povo, e prolífero legislador.
Completou o ensino primário num colégio do Porto, não sem antes, ter frequentado os primeiros anos numa escola régia; e, na sequência, ter tido aulas de latim em sua casa ministradas por dois padres, para ele exemplos de tanto rigor no ensino que a mínima hesitação nas respostas dava sempre lugar a exagerados castigos físicos aplicados com a palmatória.
Foi esta circunstância que o levou a sentir repulsa pelo ensino e aversão aos professores, facto que se repetiu e ampliou durante a frequência no colégio do Porto, onde fez os preparatórios para a entrada na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, tendo concluído aí o curso de bacharel em advocacia.
Embora aluno aplicado, não se deu bem com a Faculdade, contrariamente à vida que levava fora dela. Tendo reprovado no 1.º ano, tal facto havia de imprimir-lhe a grande responsabilidade na continuação dos estudos e maior aversão aos professores.
Sempre amigo das letras, publicara até ali vários artigos seus em alguns jornais, e levou para o exame um livro sobre o Direito Romano do qual, depois de impresso, ofereceu um exemplar ao lente que o havia reprovado. Aquele livro não só foi bem recebido pelos lentes como, também por eles, foi recomendado aos alunos como um bom compêndio de estudo.
Esta reprovação levou a que o pai quase não falasse com ele durante as férias, e decidisse cortar-lhe a mesada.
Na sua luta, acabadas as férias, voltou para Coimbra e chamou a si as despesas que ali tinha de enfrentar. Dando explicações e escrevendo para os jornais, conseguiu sobreviver e acabar o curso, já casado e com um filho.
Resultando do concurso para a carreira administrativa, foi, por intervenção de um pedido que Camilo Castelo Branco fez ao Ministro (“sobre um rapaz que escreve”) para que despachasse aquele concorrente, foi – repito – colocado como Delegado do Procurador Régio no Sabugal, daí transitando para Portalegre e, posteriormente, para Ovar.
Já em Lisboa, após o Ultimato inglês, fiscalizou a imprensa; e aí foi tão atacado pela crítica que se fez transferir para Sintra.
Em Coimbra, fundou “A Porta Férrea” e o Panorama Contemporâneo”; em Portalegre, a “Gazeta de Portalegre” e o “Comércio de Portalegre”; em Lisboa, a “Revista Nova” e “Revista de Direito e Jurisprudência”. Na área de Direito, publicou ainda obras de grande fôlego.
Com toda a atividade de que se rodeou, teve momentos de crises de esgotamento, momentos em que pouco ganhava, chegando até algumas vezes a não ter que comer.
Como obra literária, publicou dois livros: “Os Meus Amores” e “In Illo Tempore”.
Naquele, composto de contos rústicos, cuja leitura leva a conhecer o espaço e as personagens em que elas se movimentavam, revela um certo saudosismo e respeito pela terra em que nasceu. Com eles, ora faz sorrir, ora chorar, e leva a admirar o talento de quem tão perfeitamente as retratou.
Neste, transporta-nos ao tempo da sua frequência na Universidade de Coimbra, revelando, com certa bonomia, a vida académica, nas diversas atividades.
Na sua intervenção como pedagogo e amigo do povo, publicou, entre outros, os livros de leitura para a primeira, segunda e terceira classes.
A Autobiografia que pode ler-se no final da 15.ª edição de “Os Meus Amores”, sintetiza, na última página, muito da sua vida, ao afirmar: “Creio em Deus; sou cristão; amo a Arte de toda a minha alma; gosto muito das mulheres e das crianças, das flores e da natureza; e o meu maior e mais vivo prazer seria remediar os necessitados. Vivo num 4.º andar (111 degraus acima do nível… da rua! […], mas tenho flores à entrada da porta e cá dentro muita luz, minha mulher, um filho e um canário – e lindas vistas […]”.
“A mim… a mim reputo-me um pobre filho do povo, que por acaso veio dar cá acima, e que não podendo voltar à terra de onde brotou – oh, jamais! – tem dela infinitas saudades (que quase nem sequer são feitas de lembranças, tão cedo eu a abandonei!) e está atónito do que vê cá cima… - e lá baixo!”
