Entrevista a Jorge Gomes - PS

“Precisamos de receber mais imigrantes”

Publicado por António G. Rodrigues em Sex, 2019-10-04 14:36

Mensageiro de Bragança: Que balanço faz desta Legislatura, sendo que não esteve a tempo inteiro no Parlamento?

Jorge Gomes: Estive dois anos fora e dois anos no Parlamento. Não quero comentar os anos em que estive fora, como Secretário de Estado, porque é um assunto que não quero discutir. Quanto aos dois anos em que estive na Assembleia, tive ali uns meses em que o apetite de intervenção não era grande mas depois fiz o meu trabalho na Comissão da Defesa Nacional. Depois vim a integrar a Comissão de Inquérito a Tancos e a Comissão de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos. O que é inédito porque não é normal que um deputado faça parte de duas Comissões em simultâneo.

Tive 145 audições no trabalho parlamentar. Sabemos a hora a que começam mas não sabemos a que horas acabam. Tivemos inquirições a começar às 15h00 e a terminar às 24h00.

Mas foi um trabalho muito agradável. Participei na elaboração de três ou quatro leis, fiz intervenções em plenário, em comissões. Fiz um trabalho de deputado daqueles bem cumpridores. As pessoas só têm noção da importância porque as televisões anunciavam que estávamos reunidos até às 24h00 ou 01h00.

Convém não esquecer que uma Comissão de Inquérito funciona quase como um tribunal. Ninguém é condenado por nada mas as atitudes do Joe Berardo na Assembleia fez com que lhe penhorassem alguns bens. Foi o comportamento dele que veio espoletar formas de o atacar.

 

MDB.: Qual é que lhe custou mais, a do Berardo ou a do Armando Vara?

JG.: Nessa ausentei-me logo que pude. Não fiz qualquer pergunta ao Armando Vara porque é de cá e é uma pessoa amiga. Fui eu que o recebi na Assembleia. Também não tinha, obrigatoriamente, que lhe fazer perguntas.

 

MDB.: Ao longo destes quatro anos, o que faltou para o distrito? Havia obras programadas que ainda não foram feitas, como as estradas de Vinhais ou de Vimioso, as obras no hospital…

JG.: Que se mantêm no nosso programa. Entendemos que é uma questão fundamental e pretendemos que venham a ser feitas. Assim como está a resolução em que trabalhei, na criação do plano nacional de investimento, em que o PSD fez algumas propostas, o PS fez todas as propostas que a CIM considerou úteis. Da CIM Douro também há algumas questões neste plano.

Agora, não foi feita a estrada de Vinhais nem a de Vimioso. Sobre essas tenho confiança que poder-se-á avançar. O ex-ministro Pedro Marques prometeu, de facto, a estrada para Vinhais mas depois veio dizer que não havia possibilidades de a fazer. Foi sério ao prometê-la mas também foi sério ao dizer que o ministério não tinha capacidade.

Preocupam-me bem mais os investimentos na saúde. Já estão a avançar os investimentos nos hospitais de Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança no que à eficiência energética diz respeito. São cerca de 14 milhões de euros.

Depois temos o problema do bloco operatório de Bragança, que está apenas dependente dos despachos dos ministros das Finanças e da Saúde, para que possa ser aberto o concurso.

Mas temos outro problema. Uma série de concursos ficaram desertos. Antes do Governo de Passos Coelho Bragança tinha tantas empresas de construção mas durante essa legislatura conseguiram destruir todo o tecido empresarial. Sobraram um ou dois empreiteiros que não estavam suportados na venda de imóveis de habitação. Neste momento, não têm pessoal, Concorrem para fazer um quartel de bombeiros em Alfândega da Fé e não temos mão-d’obra.

E isso acontece em todo o país. Bragança está com 6,7 de taxa de desemprego, e de longa duração. Se não conseguirmos encontrar operários especializados vindos de fora, teremos problemas.

Por exemplo, a Faurecia tem 1200 trabalhadores. Se quiserem mais 200, não arranjam.

 

MDB.: Como se resolve isso?

JG.: Não é fácil. Não estou a criticar os tipos de contratos que fazem mas para trazerem trabalhadores de fora têm de pagar salários muito bons.

 

MDB.: Mas o custo de vida aqui é mais fácil do que no litoral…

JG.: Mas o que ganham não chega.

 

MDB.: Na construção ou na agricultura, em que os salários são mais altos, como se resolve isso?

JG.: Portugal tem de começar a receber imigrantes. Temos de começar a receber gente de outros países, sobretudo na agricultura. Isso já acontece no Alentejo, ou aqui no Douro. O que quer dizer que vamos ter de começar a receber trabalhadores. De outra forma, não vejo como ultrapassar os problemas de falta de mão d’obra. Temos uma experiência grande com o Politécico. É a instituição de ensino superior que mais alunos estrangeiros tem no nosso país. E isso é uma experiência excelente. Tirando a Europa, são 57 nacionalidades. E isto pode fazer-se com outro tipo de mão d’obra. Temos de ser um país acolhedor e cumpridor das regras. Assim ultrapassaremos a falta de mão d’obra. 

Nestes últimos quatro anos estancou-se um bocadinho a saída de gente mas, ainda assim, houve muitas pessoas a irem embora do nosso distrito.

Vamos ter um programa interessante, que é o Erasmus Interior, que possibilita aos alunos virem para o interior da mesma forma que vão para outros países. É uma excelente ideia para ajudar a desenvolver a região e isso pode trazer-nos muita juventude que venha visitar-nos e depois não queira sair.

Continuo a achar que o maior problema em captar gente do litoral é o conceito do “é longe”, o preconceito. Mas quando vêm pessoas cá, sentem dificuldade em ir embora.

 

MDB.: Para os próximos quatro anos, que medidas propõe?

JG.: A saúde é fundamental. A área dos cuidados continuados, com o reforço de acordos e criação de unidades para doentes com problemas mentais.

Já temos algumas IPSS em criarem essas valências. Estamos disponíveis para apoiar isso. Temos de ter uma boa resposta na saúde, na velhice, na Justiça, que é fundamental, pois ainda falta reabrir alguns tribunais.

 

MDB.: Na saúde, como se convencem os médicos a vir para cá?

JG.: Ainda não é permitido obrigar ninguém a vir trabalhar para aqui. Temos qualidade de vida, esperança de vida. Somos afetuosos com os de fora. Também temos de ser nós a vendermos a nossa região e isso tem faltado. A CIM tem um papel fundamental nisso. No concurso anterior, em 12 vagas só tinha vindo uma médica. Agora já se preencheram 50 por cento das vagas. Mas temos de ter a ajuda do Poder Central. Não é permitido haver umas pessoas a pagar mais impostos do que outras mas há outro tipo de apoios, como à renda de casa.

Também temos no nosso programa uma diferenciação fiscal para as empresas, para as que estão e para as que venham. Tem de haver uma diferenciação positiva mas para todos. Tem de haver medidas do Poder Central mas temos de ser nós, que vivemos aqui, a criar soluções para nós próprios. O Estado tem de ser o facilitador para colocar as nossas medidas em marcha.

 

MDB.: E na agricultura?

JG.: Sim, temos um plano integrado de barragens. E um ICNF com capacidade de decisão a nível distrital em articulação com o poder local; A descentralização da gestão das áreas protegidas  nas Autarquias em articulação com o ICNF, bem como dotar as autarquias de máquinas de rasto outros equipamentos para prevenção e combate a incêndios; A criação de programas incentivo à gestão florestal, limpeza de faixas reorganização de floresta autóctone e a promoção e medidas de preservação das raças autóctones ou o combate às doenças das produções agrícolas animais; Também defendemos um investimento no aumento e requalificação de canis intermunicipais e políticas bem-estar animal.
Nos serviços, na Saúde/Educação/Emprego/Justiça, Pretendemos disponibilizar às populações condições dignas de vida, oportunidades de emprego, bons serviços de educação e saúde, bem como garantir a existência de estruturas judiciais acessíveis e céleres. Nesse sentido, defendemos a modernização e manutenção de equipamentos, como tribunais estações correios; A modernização e manutenção Unidades de Saúde e incentivos à fixação de médicos no interior; o reforço de equipas multidisciplinares nos Centros de Saúde e novos equipamentos de  Saúde mental para adultos e Unidades de Cuidados Continuados.
Em termos de Política Económica e Fiscal, apontamos a uma discriminação fiscal  positiva de todo o tecido empresarial na região, políticas de atração de investimento para a região de forma a atrair e fixar pessoas e a uma política de valorização dos recursos geológicos do distrito com medidas ambientais adequadas.   

 

MDB.: Ficou desiludido com a Estrutura de Missão para a Valorização do Interior?

JG.: Não, não fiquei, porque é algo que leva muito tempo. Quando fui Secretário de Estado dei o meu contributo para as 184 medidas mas é um trabalho grande porque há medidas cuja decisão exige três ou quatro ministros. Mas não tenho dúvidas que terá efeitos muito positivos.

 

MDB.: Na última década despareceram metade dos órgãos de CS regional em Bragança. O que defende o PS?

JG.: É uma área que tem estado sob fortes ataques do digital. Nunca imaginei que o DN chegasse aos níveis de tiragem que tinha. Temos em Portugal dois jornais diários que ainda têm alguma pujança.

Lembro-me de só a cidade ter cinco títulos, hoje tem dois. Mas entendo que não será uma medida do Governo que vem resolver a situação. Entendo, sim, que o Governo tem de olhar para isto com alguma preocupação, porque a informação regional tem uma proximidade que os nacionais não têm. É preciso ter isso em atenção e estaremos disponíveis para falar com quem de direito para ajudar a resolver o problema. Acho que há muitas coisas que o Governo pode fazer e que facilita a sobrevivência dos jornais.