A opinião de ...

O urso e os camursos

Na História da Sociedade Portuguesa no Séc. XV, o historiador Costa Lobo escalpeliza os modos de vida dos cortesãos, dos burgueses e dos patas ao léu estabelecendo as gritantes diferenças e algumas consonâncias das três classes: alto clero e nobreza. Burguesia a emergir e o povo explorado, pobretana e pedinte. No tocante ao importante vector da caça (apanágio dos nobres desocupados nos momentos de paz) para lá dos javalis, outros animais como os ursos faziam parte da agenda de ócio e representação do poder, da força, da virilidade da nobreza de quatro costados que exibia a cabeça das «feras» nas salas e corredores dos palácios e solares. No tocante à carne dos caçados era entregue à criadagem para escolher os melhores pedaços destinados aos banquetes e festins de exaltação desse mesmo poder, relativamente aos despojos menos suculentos serviam para alimentarem essa mesma criadagem e os restos atirados ou dados aos numerosos pobres e pobres de pedir. Se estudarmos os manuais dedicados à génese da aliança entre a caça e o poder verificamos quão antiga ela é, quão minuciosa no estabelecimento de normativos protocolos e quão frutífera foi ao longo dos séculos quer no tocante à conquista, quer no referente à explanação magnificente dessa mesma conquista.
O urso na época neolítica ensinou o homem a retirar mel das colmeias, a pescar nos rios e lagos, a andar sobre o gelo e a neve, primacialmente a distinguir as bagas e sementes boas das más poupando-lhe sofrimento e morte. Sendo um animal simpático, quando enfurecido o seu abraço asfixia e mata.
Um dos maiores safardanas da História, José Estaline, imitou o referido abraço, mandou sufocar milhões de pessoas, o tristemente famoso abraço entrou no vocabulário político, ficando o animal associado a todo o tipo de dislates e malfeitorias.
Os ursos em Portugal deixaram de aparecer há séculos, os camursos propiciaram-lhe tantos e tão apertados abraços que os reduziram a evocações e personagens literárias, só sobrando do seu viver nas terras portuguesas referências toponómicas, alcunhas chistosas, piadas rasteiras (sopa de urso) e uns descendentes acorrentados a rufarem tambores e executar exercícios nos circos.

Um urso surgiu na Serra de Montesinho, um camurso disse quanto lhe agradava caçá-lo de modo a decorar a sala dos dias de festa.
O desejo expresso entre dois sorrisos enuncia o sabido: a vanidade do Homem é gargantuesca logo não mensurável, capaz de todas as vilanias. Salvem o urso.
Os camursos estão de tocaia.

PS. Nem de perto, nem de longe gosto do totalitarismo do PAN!

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