A opinião de ...

A difícil relação entre jornalismo e a política

A relação entre jornalismo e política esteve em debate na Assembleia da República, em conferência promovida pelos professores Rita Figueiras, Paula do Espírito Santo e Joaquim Paulo Serra e subordinada ao tema «O Jornalismo Político em Portugal». Coube-me a subida honra de, em representação do Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, fazer a intervenção de abertura.
Esta difícil e controversa relação entre políticos e jornalistas é alimentada por uma certa desconfiança mútua e por aquilo que alguns consideram uma espécie de promiscuidade. Francisco Pinto Balsemão afirmou que “há mal-estar entre poder político e media”, o que, em sua opinião, resulta de uma “conceção dualista que alguns fazem dos meios de comunicação social: há os que veem os media como inimigos a abater e os que acham que são instrumentos a utilizar”. Francisco Pinto Balsemão sabe do que fala. Ele, que foi fundador de um partido político, primeiro-ministro, diretor de jornal e empresário de um grande grupo de comunicação social, é a personalidade portuguesa que melhor conhece essa tensão permanente entre o campo da política e o campo do jornalismo.
Certo é que vários jornalistas transitaram para a política, inclusive diretores de jornal que chegaram a líderes partidários e ministros. Os casos mais conhecidos são Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Portas. Mas houve muitos mais que, em determinado momento, trocaram o jornalismo pelo parlamento: João Gomes, José Carlos de Vasconcelos, João Paulo Correia, Alexandre Manuel, Manuela de Melo, Manuela Moura Guedes, Vasco Pulido Valente, Vicente Jorge Silva, Maria Elisa…O movimento inverso também é verdadeiro. Há hoje vários ex-ministros, deputados e conselheiros de Estado que são comentadores residentes de canais televisivos: Marques Mendes, Pacheco Pereira, Jorge Coelho, Francisco Louçã, por exemplo.
Não conheço suficientemente o que se passa nos diferentes países europeus para afirmar que Portugal é um caso singular de transferência do jornalismo para a política e da política para o comentário político em órgãos de comunicação social de grande audiência. Mas atrevo-me a afirmar que a transferência de campos não será encarada com naturalidade nas democracias da Europa Central e Setentrional.
A conflitualidade entre jornalismo e política acentua-se em períodos eleitorais. Por exemplo, na recente campanha, houve quem não gostasse de ver o protagonismo mediático ser transferido dos candidatos para os jornalistas e se queixasse pelo facto de nem sempre ser óbvia para os eleitores a distinção entre informação e opinião, já que muitos jornalistas introduziam o comentário político na reportagem.
Mesmo no dito jornalismo de referência há preocupantes sinais de contaminação de informação com entretenimento e com desinformação. A vertigem do tempo da comunicação e a concorrência entre os media pelos ganhos publicitários não favorecem a ponderação da fonte e o recurso ao contraditório. Neste contexto, é natural que os jornalistas concertam entre si, para se defenderem, o que destacar, o que reter, o que ignorar.
E tendo em conta que vivemos num novo mundo, o maravilhoso e perigoso mundo digital, a situação complica-se. A disseminação de conteúdos falsos nas redes sociais tem feito correr muita tinta. E é motivo de preocupação porque a desinformação representa um sério risco para a democracia. O fenómeno não é nacional, mas os portugueses parecem estar menos conscientes da exposição a notícias falsas, menos preparados para as identificar e menos capazes de perceber como funciona a máquina de desinformação do que a média dos cidadãos europeus.
É também por isto que, mais do que nunca, precisamos de um jornalismo sério e responsável, em quem os cidadãos possam confiar, que faça a diferença e valorize e defenda a democracia.

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