A opinião de ...

O Rabudo e a Chumbeira

O anzol e o tresmalho tinham uma utilização residual. As artes de pesca mais usadas, na ribeira da Vilariça, no tempo em que os peixes abundavam, vindos do Douro e do Sabor subindo pelo vale acima, chegando a ribeiros e até ribeirinhos, eram o rabudo e a chumbeira.
O rabudo era de fácil utilização. Uma rede em forma de saco, fixada em duas hastes, de madeira, podia ser manuseada por uma única pessoa (cruzava as hastes, meio metro acima da fixação superior para garantir uma abertura eficaz) ou por duas, pegando cada uma no seu bastão. Era usado sobretudo em zonas de água corrente ou zonas mais apertadas do leito fluvial. Faziam-se várias passagens ao longo da corrente pois era sabido que havia sempre uma grande quantidade de pescado que fugia às investidas dos pescadores.
Já a chumbeira requeria grande mestria no seu uso e tinha a sua maior eficácia em zonas mais paradas e largas da ribeira. Em enseadas arredondadas se isoladas por entradas e saídas apertadas, quando bem usada era de grande eficácia. Lembro-me de ter assistido, em frente à Canameira Grande a um lançamento perfeito da enorme rede, pelo Alberto Abade. O ti Alberto era um mestre no uso. À sua natural habilidade para o manejo daquela arte, juntava a sua altura e força tornando-se um utente exímio. Em frente ao recôncavo havia uma língua de areia que lhe proporcionou uma ligeira elevação, de grande utilidade para o lançamento. Puxou a rede pela arte central, onde estava presa a corda que atou ao cinto e que haveria de servir para a puxar, no final, fez três dobras bem escorridas, ficando a borda inferior, junta, com a enorme rodada de bolas de chumbo (de onde tirou o nome) puxando-a para baixo. Com uma mão segurou as dobras, meteu uma das pontas na boca e, com a mão livre, atirou com a outra ponta para o ar, num gesto perfeito, abrindo a boca, no momento apropriado. A rede abriu-se no ar, como uma enorme rosácea e caiu, perfeitamente, na quieta superfície aquática, cobrindo toda a zona visível e mergulhando de imediato. Sorrindo, Alberto Abade puxou para a margem, a rede, cheia de pescado. Perante a sugestão de um novo lançamento o pescador sorriu e garantiu que não valia a pena. E tinha razão. Não ficou lá, nem um único peixe.
Quando se fazem testes à medida que se vão reconhecendo sintomas COVID, estamos a “pescar” o vírus, como quem maneja o rabudo. Apanham-se alguns, mas há sempre outros que escapam e por mais testes que se façam, diminuindo, eventualmente, o número de infetados, não os eliminando e dada a grande capacidade de reprodução, torna-se difícil contê-lo eficazmente. Pelo contrário, a técnica da chumbeira, seria muito mais eficaz. Testando a totalidade da população (não sendo possível no país inteiro, poderia ser nos concelhos com maior incidência) e garantindo que ninguém entrasse sem ser igualmente testado (os testes rápidos facilitam esta estratégia) obtinha-se uma zona totalmente controlada que, pouco a pouco poderia ser alargada. Necessitaria, sem dúvida, um grande investimento mas, o confinamento, globalizado, os reforços exigidos ao SNS, as falências e desemprego, provavelmente, exigem mais, no final.
A adoção de testes, proativamente, foi uma das medidas que, contribuiu, decisivamente, para os bons resultados, em Taiwan.

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