A opinião de ...

Próximo!

– Próximo! Quem é o próximo?
Apressado, quase assustado, o idoso dirigiu-se à secretária de fórmica branca onde, interrogativo, observando-o por cima dos óculos, com ar incomodado, o funcionário das Finanças apressava-o com o olhar insistente. O contribuinte apertava as mãos e, falando baixo, mal se ouvia. Deduziam-se as suas palavras pelas respostas e interrogações do servidor público, e já com ar de poucos amigos. Teria, provavelmente, sobejas razões para não estar bem disposto.
– Para pagar o IRS? Sim senhor. Mostre-me a nota de liquidação...
A atrapalhação do interlocutor era óbvia.
– Mas se o senhor não tem a notificação como é que sabe quanto tem a pagar? Pode até nem ter que pagar nada...
A ironia não foi apreciada...
– Foi o seu sobrinho que lhe disse? E como é que ele soube? Viu no papel. Pois é esse papel que eu preciso, agora, de ver, também! Perdeu-o? Essas coisas não se perdem. Como é que quer resolver o problema? Se posso ver no computador? Posso... Que remédio... Diga-me lá qual é o seu Número Fiscal de Contribuinte... Não sabe? Mostre-me o cartão que as Finanças lhe enviaram... O quê? Não me diga que também o perdeu... Está em casa? Numa gaveta da mesinha de cabeceira? Pois então vá lá buscá-lo e depois venha cá. Sem isso, nada feito! Claro que depois vai ter de apanhar vez. Ninguém tem culpa... Há muita gente à espera.
O olhar que o apressara, empurra-o agora para fora da cadeira onde, entretanto, se sentara.
– Próximo!
Há já vários anos que trato dos meus assuntos contributivos pela internet e não vou a uma repartição de Finanças, em Lisboa. Fui, esta semana, a uma, em Moncorvo, com o meu pai. Lembrei-me desta cena porque também ele perdera a nota de liquidação “Não sei onde é que a tua mãe o pôs” e, chegando à entrada da vila, perguntei, por perguntar, se trazia com ele o cartão de contribuinte ou se sabia o número. Nem uma coisa, nem outra... “Oh diabo. Se calhar vamos ter de voltar cá...” Confiante assegurou-me “Não! Nada disso!”
As perguntas foram as mesmas, mas a simpatia era grande e agradável.
– Tem a notificação, consigo? Perdeu-a? Não faz mal... Emitimos uma segunda via. E o número de contribuinte? Não tem nem sabe qual é? Havemos de encontrar. Diga-me lá o seu nome completo. Da Junqueira, não é? Está aqui... São...
– É isso mesmo. Tenho aqui um cheque para pagar mas não o preenchi com receio de me enganar, mas fixei o número e é exactamente esse...
– Dê-mo cá que eu preencho-o. Olhe que a data de validade dos cheques está a terminar. Tem de tratar disso no banco.
No final um cumprimento e votos de boa saúde! Como são diferentes os serviços públicos, na minha terra! Há alguns anos tive de fazer um tratamento de enfermagem no Centro de Saúde de Moncorvo. Tecnicamente não senti nenhuma diferença de operações idênticas feitas na capital. Mas a simpatia e a humanidade foram radicalmente diferentes, para melhor. Foi idêntico o tratamento recebido na Câmara, nos Serviços de Atendimento ao Público, no Gabinete de Veterinária e no Departamento de Obras Municipais.
Bem hajam a todos os funcionários públicos do meu concelho pela forma empenhada, gentil e humana como desempenham as suas funções! É algo que tem preço! Reduzir ou menorizar serviços com colaboradores assim é quase criminoso.

Edição
3794