A opinião de ...

A Misericórdia

A mais remota e esbatida imagem que retenho da Misericórdia, leia-se Santa Casa da Misericórdia de Bragança é a de na minha meninice ser trado no sal Hospital a uma queimadura contraída no braço direito por causa de um acto voluntarista de gula. Posteriormente, já na adolescência voltei a transpor o portão de entrada de pilares encimados por globos a irradiarem luz trémula, balbuciante, envergonhada, nas noites invernais, nesse tempo quem me deu injecções foram freiras simpáticas de sorriso largo, de vozes acetinadas, de sílabas abertas de forma a serem entendidas à primeira. A última passagem ocorreu há uns três anos a fim de entrevistar uma risonha e loquaz senhora de Gimonde a propósito de recolher testemunhos de vidas, de mantenças e usanças alimentares. Nessa entrevista beneficiei da amizade do seu Provedor, Dr. Eleutério Alves, a mesma gentileza repetiu ao oferecer-me duas obras recentemente editadas pela centenária e benemérita Instituição. Neste artigo procurarei discorrer sobre a reedição do livro «Santa Casa da Santa e Real Casa da Misericórdia de Bragança, trabalho de investigação do então Padre José de Castro.
Há anos encontrei na alfarrabista Bizantina situada em frente da entrada principal da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no Largo Trindade Coelho, e adquiri a primeira edição do livro do autor bragançano, figura saliente das letras eclesiásticas devido ao seu labor nos arquivos da Santa Sé que o agraciou com o título de Monsenhor. A circunstância de possuir a primeira edição do livro permitiu-me cotejá-la com esta edição comemorativa dos quinhentos anos da fundação desta Casa onde se praticam as obras de aconchego espiritual e material a todos necessitados sem olhar a berços de nascimento e vidas anódinas ou não.
A apresentação, a revisão científica e a apresentação crítica são da autoria da Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Maria Antónia Lopes, autora de vasta obra relativa à acção do Estado, das Instituições e de personagens individuais no domínio da assistência social, integradoras e punitivas como é caso saliente a seu estudo sobre o Intendente Pina Manique.
As anotações críticas de Maria Antónia Lopes valorizam e permitem avaliarmos com melhor e maior profundeza o trabalho de Monsenhor José de Castro, revelando o seu pioneirismo na matéria num período de importantes alteridade referente à historiografia e seus métodos em consequência dos ‘combates pela história» iniciados por Lucien Febvre, Marc Bloc e Georges Duby. Ao contrário de Lelos glutões dos esforços alheios, a investigadora coimbrã abre arcas mesmo encoiradas de molde a possibilitar aos leitores o acesso fontes documentais escondidas ou sepultadas em arquivos considerados propriedade privada dos seus episódicos zeladores. Está de parabéns a Santa Casa, o seu Provedor e todos os seus colaboradores

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3741