A opinião de ...

Políticas de quase promoção da pobreza

bras que se vão fazendo na cidade de Bragança, nos últimos tempos. Algumas, importantes e necessárias como o prolongamento da Circular Exterior até à Zona Industrial das Cantarias. Outras, ainda, necessárias, para comodidade dos transeuntes e residentes como o aplanamento e repavimentação de ruas e passeios e a melhoria de jardins
Porém, outras, de inegável beleza mas muito pouca utilidade e, sobretudo, rentabilidade, a não ser a turística, obrigam-nos a colocar a questão das políticas que, pretendendo atrair riqueza, só contribuem para o aumento da pobreza. Faz lembrar o pobre que, no Inverno, não tendo dinheiro para comprar umas calças e um casaco, compra um sobretudo, para tapar as misérias e para gastar todo o pouco dinheiro que tem. Refiro-me às obras da Avenida Sá Carneiro e da Avenida João da Cruz. Olha-se para elas e fica-se encantado com a nobreza dos materiais, com a intenção de aplanar pavimentos e passeios e o cuidado no restauro da calçada à portuguesa.
Porém, pensa-se um pouco mais profundamente e pergunta-se: afinal, o que é que foi reestruturado com todo este dinheiro gasto? O trânsito parece ficar na mesma, com os mesmos problemas, ao contrário do que foi sugerido por muitos intervenientes na audição pública. Podia-se ter aproveitado para melhorias várias na circulação de peões, motociclos e veículos automóveis. Ao que se vê, nada. Apenas cosmética e cosmética da pior.
Cosmética da pior porque, no final, na Avª João da Cruz, o piso continua irregular e os passeios estreitos, sendo difícil, no Verão, caber uma cadeira de rodas, a par das explanadas dos cafés e bares. Na Rua Guerra Junqueiro, os passeios ficaram bonitos mas o piso da rua continua irregular e a lama e o pó das obras lá continuam a infernizar os residentes e transeuntes, quase um ano depois do fim das mesmas.
Na Avenida Sá Carneiro, as obras nos passeios deixam-nos bonitos embora de dispêndio luxuoso e desnecessário mas o piso da avenida lá continua, esburacado, sonolento, à espera de uma mais célere intervenção. As mesmas irregularidades na Avenida João da Cruz.
Mas o pior, mesmo, é a ausência de melhorias na circulação de pessoas, motociclos e veículos. Tudo ficou na mesma, com as lacunas de há vinte anos: excessiva concentração de ruas e de trânsito adjacente à zona dos correios, com cruzamentos desnecessários; não eliminação de um pequeno troço da Avenida João da Cruz para prolongamento do «Largo da Taça» e não colocação de uma rotunda distribuidora em torno da construção de homenagem a Sá Carneiro.
Tudo isto pode ainda ser feito mas o não tê-lo sido ainda levanta mais uma vez a questão das políticas de luta contra a pobreza, as quais, pretendendo combatê-la, a consolidam. Os decisores camarários não são totalmente culpados porque as políticas de financiamento são decididas a um nível superior. Mas, lá que os decisores de cá podiam puxar mais um bocadinho pela cabeça, lá isso podiam.

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