Do desvalorizar ao não caso
á muitos anos que conheço a palavra desvalorizar. Mas parece-me que (e quase tenho a certeza), nestes muitos anos, sofreu uma alteração semântica de peso! E então, não há como tentar explicar.
Filho e crescido no mundo rural, sempre que, desde a adolescência, conseguia imiscuir-me numa conversa de adultos que se revelava com algumas preocupações, muitas vezes ouvia dizer que, nesse ano, por isto ou por aquilo, o produto das colheitas (fosse de amêndoa, de azeite, de vinho ou de outra), estava a desvalorizar-se. Era certo, pois, que vários destes interlocutores decidiam guardar esse produto ou parte dele, retardando a venda à espera de melhores ofertas, enquanto outros, menos abonados, se apressavam a vender, na suposição e receio de que esta desvalorização viesse para ficar ou aumentasse ainda mais.
Este problema da desvalorização aplicava-se também aos terrenos, às casas, ao dinheiro que já não chegava para nada (“cada vez as coisas estão mais caras” – dizia-se), estendendo-se, estão, às mais variadas transações comerciais.
E assim, fui interiorizando o preocupante significado daquela palavra: desvalorizar.
Contudo, aconteceu que, no decorrer dos anos, esta palavra me foi surpreendendo. Desde que comecei a ouvi-la e a compreendê-la, já não me parecia significar o mesmo. Falava-se da desvalorização de tantas coisas diferentes que, durante algum tempo, confesso que, praticamente, já não conseguia atinar com o seu significado. Foi um mundo em que uma persistente variedade de opiniões relacionada com aquela palavra levou a confessar-me vencido.
Mas não foi só isso…
Conheci, entretanto, um casal que, por causa da desvalorização, cada vez mais se envolveu em querelas de tal forma subindo de tom, que quase o levaram ao divórcio. Foi o caso da mulher que, cansada duma vida monótona durante um bom par de anos, resolveu propor ao marido que se inscrevessem num determinado cruzeiro já suficientemente publicitado, e coincidente com as próximas férias de verão.
Perante o caso apresentado com o habitual dramatismo que o momento exigia, o marido, depois de ter olhado demoradamente para ela, começou por dizer que isso dos cruzeiros era um sonho de muita gente que, por vezes, se tornava numa dura realidade: primeiro, pelo dinheiro que iria gastar-se e, como sabia, eles não tinham; depois, por algum acidente que poderia acontecer, nalguma provável tempestade; e também porque, teriam de desistir da oportunidade de, mais uma vez, poderem divertir-se nas festas da terra, (na expetativa não manifestada de que um dia haviam de nomeá-lo mesário das mesmas).
Perante o quadro apresentado pelo marido, a esposa facilmente concluiu pela desvalorização da sua proposta contra a importância que ela lhe atribuía. Ora isto deu aso a altercações várias que facilmente foram minando a boa convivência do casal. Contudo, porque os laços eram fortes, um dia combinaram sair à noite para um jantar de reconciliação, não sem a promessa da parte do marido de que havia de ir pensando no assunto e que, com toda a certeza, mais ano menos ano, haviam de fazer esse cruzeiro. Coisas que acontecem…
Se não esta, outra preocupação me fez gravemente pensar, quando o desvalorizar passou para o campo da política. Aí, sim, foi um caso sério: sempre que algum representante do povo (daquele povo que o elegeu), dava aso a que vários indícios sobre algum deslize alegadamente praticado por si, levavam a desconfiar da sua atuação, imediatamente esse representante se apressava a informar que desvalorizava esse ato, sem dar satisfações com o que poderia acalmar as desconfianças.
Mas o que, presentemente, mais me tem preocupado é a afirmação de que, sobre esse ou idêntico deslize, não vale a pena argumentar, por se tratar de um não caso.
Ora, se não há caso, não há motivo para falar dele…