A opinião de ...

O medo de si

Neste contexto tão peculiar, tão diferente e tão incerto, o existencialismo humano assume redobrada importância e um renovado espaço reflexivo nos fóruns íntimos e sociais da pessoa e da comunidade.
A assunção do medo, visível nos comportamentos sociais e pessoais, tem revelado o lado mais negro da pessoa humana. Sabemos que a inexistência de relações de mútua partilha gera – quase sempre – o individualismo narcisista, hedonista e violento. Conscientes disso, temos e devemos fazer o percurso contrário a esta tendência individualista: só o sair de mim mesmo, só a assunção do outro como protagonista da minha vida, só quando me projecto para fora e olho ‘olhos nos olhos’ o outro, faço nascer em mim a consciência de que este outro não é um qualquer outro igual a mim mesmo, mas, antes, este outro nasce como um irmão. É bela esta consciência de olharmos o outro como irmão, pois, além de sentirmos uma ligação umbilical, também nos fazem saber partilhar e gerar laços sempre novos de afetos, de vida e de profunda caridade.
E é aqui que a Fé e a instrução doutrinal da Santa Igreja Católica nos sustentam e nos formam para esta nossa mundividência antropológica e existencial. Portanto, só na vivência plena da virtude da humildade e numa nova atitude de serviço é que, paulatinamente, assumiremos e viveremos esta transformação.
Às vezes penso que as pessoas não vão mais à Santa Missa com medo de se encontrar com eles mesmos, de se encontrarem com a sua própria vida, com as suas próprias circunstâncias, com as suas próprias opções, com as suas próprias decisões, com os seus próprios medos e demónios, com o seu próprio Criador. Na verdade, o pecado faz-nos esconder, envergonha-nos, faz-nos cobrir e tapar, tira-nos a liberdade, faz-nos escravos, dependentes, doentes e violentos. O pecado não é só o acto de fazer ou dizer. É também por aquilo que somos e/ou deveríamos e poderíamos ser.
Nesse sentido, este novo vírus trouxe um grande problema: corremos o risco de não seremos o que estamos destinados a ser, ou seja, criados e nascidos por amor e projectados para amar e fazer amar.
Perdemos o que é mais humano, isto é, um abraço, um beijo, o contacto e partilha. Necessitamos – e muito – disso. Somos dom de Deus: só a Graça dá inteiro sentido à vida humana e só n’Ela o amor se torna pleno. Somos de Deus e para Deus na comunhão com os irmãos. De facto, “da tríade liberdade, igualdade e fraternidade, as nossas sociedades integraram as duas primeiras, mas deixaram de fora a fraternidade como se fosse um assunto estritamente privado, sobre o qual não é possível construir um consenso social. Mas, como diz o Papa Francisco, sem a fraternidade, a visão da liberdade e da igualdade correm o risco de se tornarem inconclusivas e abstratas. O reconhecimento da fraternidade é, por isso, uma das tarefas atuais mais prementes” (D. Tolentino Mendonça, Cardeal).
E eis que a pandemia – com todas as regras impostas-propostas pelas autoridades – trouxe mais medo, mais afastamento, mais distanciamento, mais indiferentismo e mais egoísmo. Porém, se este não é o nosso (ou não era) modo de viver, é, hoje, a nossa grande dor. E até quando continuaremos assim?

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3802