A opinião de ...

Sair para fora cá dentro

Não é nenhum slogan publicitário de um qualquer anúncio de turismo. Uma notícia recente do jornal Expresso dava conta de que o “preço das casas na cidade empurra procura para aldeias do interior”.
O fenómeno começa a alastrar-se ao interior profundo, não se limitando às grandes áreas metropolitanas. Em distritos como Guarda, Viseu ou Castelo Branco, o fenómeno é cada vez mais frequente. Mas no distrito de Bragança também.
Não só pelo facto de, como se constata aos fins de semana, muitos dos habitantes citadinos terem fortes raízes nas aldeias e fazerem questão de manter essa ligação como, por outro lado, os preços de aquisição de terrenos (e a quantidade disponível) serem muito mais apelativos.
Pelo mesmo preço de um lote de poucas centenas de metros na cidade compra-se terreno suficiente para quase uma quinta numa qualquer aldeia nos arredores das cidades.
Em Bragança, exemplos como os de Samil (uma aldeia que, como freguesia, já está perfeitamente integrada na malha urbana da cidade), Donai, Gimonde ou Nogueira são disso exemplo.
A melhoria das acessibilidades, a difusão de acesso ao transporte privado e a melhoria das condições nas aldeias (mais de 90 por cento já têm saneamento básico, por exemplo) tem dado uma ajuda importante.
Mas, em situações de maior pressão, como um rápido crescimento do número de habitantes, as infraestruturas de apoio (como a rede de abastecimento de água), ressente-se. É um dos casos que mais se nota no mês de agosto, quando se junta a falta de chuva à chegada massiva de emigrantes, que por estes dias alegram as aldeias e cidades mas fazem a população duplicar (ou triplicar em muitos casos), muito rapidamente.
Ora, este tipo de pressão é exatamente igual à que se assiste com a migração massiva do interior para o litoral, com a correspondente pressão sobre as infraestruturas, sejam elas físicas (distribuição de água, transportes, rede elétrica, etc), como sociais (enormes filas no acesso aos serviços, listas de espera em hospitais e centros de saúde, etc). São esses os sintomas do desequilíbrio geográfico do país.
Numa primeira fase, por uma questão de oportunidades (a industrialização, que dava empregos, estava no litoral). Numa segunda fase, fomentada pelo próprio Estado, numa lógica de poupança de recursos (providenciar serviços a muitas mais pessoas pelos mesmos – ou mais baixos – custos).
Isso tem levado ao progressivo abandono do interior e do modo de vida rural que durante séculos foi apanágio do país. A consequência está à vista, sobretudo no verão.
Sem ocupação do território, para além de os serviços ficarem mais onerosos per capita (servem menos gente pelo mesmo custo), o fenómeno dos incêndios prolifera. Deixou de haver tanto pastoreio, cultivo dos campos, limpeza de matos. A agricultura não apresenta os mesmos índices de rentabilidade do que outras atividades.
Mas há oportunidades e sinais de esperança que vão surgindo. Em Alfândega da Fé, um concelho onde o projeto (privado, apoiado em dinheiros públicos) Novos Povoadores falhou estrondosamente, a natureza segue o seu curso. Numa aldeia moribunda, com uma mão cheia de habitantes, artistas do litoral descobriram o paraíso e a musa de inspiração. O investimento começou a aparecer, o turismo a florescer e uma aldeia das artes está prestes a nascer.
É neste tipo de oportunidades que é preciso agarrar para que os fenómenos descritos atrás deixem de ter as implicações tão negativas que têm atualmente.
Será altura de repensar a forma como se aposta e promove a agricultura, sobretudo em regiões que não são o Alentejo (que tem grandes extensões de propriedades, muito mais fáceis de rentabilizar economicamente) e onde a agricultura é mais um passatempo que se tem depois de chegar à reforma do que propriamente uma alternativa viável de vida para os mais novos.
Ainda por cima, no Interior, para além de os preços serem mais baixos, a proximidade com Espanha deixa-nos a salvo das ameaças de greve dos transportadores de matérias perigosas.

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