A opinião de ...

Chamados ao abraço do Eterno Pai

“Vinde e segui-Me, farei de vós pescadores de homens” (Mt 4, 19). Este o fundamento da condição de discípulo e de missionário: de discípulo em missão e em comunhão. Ao lermos todo este capítulo quarto do Evangelho de São Mateus, damo-nos conta de que Deus não se revela de forma extraordinária, extravagante ou com os modelos mediáticos do mundo hodierno. Antes, revela-se na ocasionalidade do quotidiano e na simplicidade da vida de cada um de nós.
Foi neste simples (e quase inusitado) encontro com Ele que fez com que os discípulos transformassem de forma definitiva o seu sentido existencial. A partir deste dia já não mais serão o que eram (pescadores), mas serão o que Deus lhes tem preparado (pescadores de homens). Aqui se une belamente vocação e missão. São chamados e de seguida enviados. Curioso esta divina pedagogia: após o encontro pessoal com Deus já não conseguimos ser os mesmos. Na verdade, este encontro muda-nos, transforma-nos e projeta-nos para o que nos está destinado e para o que havemos de ser.

A atitude perante aquele que chama, perante o chamamento de Deus só pode ser a mesma atitude dos discípulos: deixaram tudo e seguiram Jesus (cf. Mt 4, 22). É este o paradoxo do seguimento: seguir Jesus exige sempre deixar tudo! É necessário deixar tudo! E o “tudo” é que é o problema. Como custa deixar os nossos desejos, os nossos sonhos, as nossas vontades e os nossos projectos... Como é difícil deixarmos de ser os protagonistas da nossa própria vida e permitir que Deus passe a ser o protagonista e gerente da nossa vida... Isto dói muito! É doloroso largar o que nos traz prazer e bem-estar. As nossas seguranças não são as de Deus. E a verdade é que, à medida que caminhamos para Deus, nos apercebemos tão clara e perfeitamente disso: a verdadeira segurança está só em Deus. Implica, pois, uma mudança de paradigmas. Os autênticos referenciais e as reais seguranças só estão em Deus; aqui encontram a sua fundamentação e a sua missão. Sabiamente o Bispo Diádoco de Foticeia (Padre da Igreja) sustenta esta ideia dizendo que “é próprio da alma que sente o amor de Deus procurar sempre a glória de Deus em todos os preceitos que cumpre e deleitar-se na submissão à vontade divina”. Continua o eloquente Padre da Igreja: “quem atinge esta perfeição deseja ardentemente que a luz do conhecimento divino penetre até ao mais íntimo do seu ser, a ponto de se esquecer de si mesmo e de se transformar totalmente no amor divino”. Este é fundamento do apostolado e da missão: amar incondicionalmente a Deus e comunica-Lo com alegria e entusiamo aos irmãos, vivendo e testemunhando a todos de que Deus muito nos ama e que nos ama (e muito) sem fim e sem limite.
Termino com o testemunho de Carl Gustav Jung, um dos pais da psicanálise, que mandou esculpir sobre a sua porta esta frase: “chamados ou não chamados, Deus estará sempre presente”. E é mesmo! Deus Nosso Senhor, como sabiamente diz D. António Couto (Bispo), “nunca se vai embora; fica por perto, à espera de nos abraçar”.
E eu, quero este abraço?

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