A opinião de ...

VAMOS VOTAR, CLARO. E DEPOIS?

Um amigo de longa data fez-me chegar um cartoon muito oportuno e que vi, depois, replicado nas redes sociais: um cidadão eleitor fala com outro cidadão falando-lhe de um candidato que jura que, depois das eleições vai baixar os impostos. Responde-lhe o interpelado: “Então diz-lhe que votamos nele depois das eleições...”
Nesta caricatura simples evidencia-se uma das maiores fragilidades da “pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história”, para usar a conhecida imagem registada para a posteridade por Winston Churchill, na Câmara dos Comuns em novembro de 1947, na sequência da vitória aliada na Segunda Guerra Mundial.
Teoricamente, as eleições, mecanismo fundador e absolutamente essencial, ao regime democrático serviriam para, na impossibilidade de ter, continuamente toda a gente a decidir sobre tudo (ou até a emitir opinião sobre todas as matérias) escolher aqueles que, em representação dos cidadãos, decidirão e opinarão sobre os assuntos comuns e de interesse geral. O sistema funciona razoavelmente bem até porque contempla vários “corretores”, algumas “balizas” e diversos “limitadores”, para salvaguardar o interesse coletivo das vaidades, propósitos individuais e sobrancerias pessoais de alguns eleitos. Por não ser, aparentemente, explícita a intenção e a atuação dos escolhidos, os humoristas socorrem-se das caricaturas para nos alertarem para comportamentos menos adequados.

Contudo, paradoxalmente, chegam a ocorrer fenómenos que ultrapassam a própria imaginação dos comediantes de tão caricatos que são. Lembrei-me de um episódio “exemplar” ocorrido há pouco tempo e que vem a propósito neste período eleitoral, numa altura em que a ANAM veio anunciar a sua consolidação. Esta associação que congrega já a maioria das Assembleias Municipais teve a sua génese no nordeste transmontano e eram, no seu início, sócios fundadores, todos os municípios nordestinos. Contudo, um dos concelhos saltou fora. Nada de anormal não fossem as estranhas motivações e mais estranhas circunstâncias em que ocorreu. Aquando da sua constituição notarial, a Assembleia Municipal, em questão, concordou, por unanimidade, com a constituição e propósitos. Contudo, quando foi necessário votar formalmente a adesão... a mesma Assembleia, por unanimidade, reconheceu a utilidade e a bondade dos seus objetivos. Chegou a propor-se para albergar a sua sede, mas... adiou a votação final. Na reunião seguinte a adesão foi, paradoxalmente, reprovada. E porquê? Porque a um eleito local, com lugar dirigente, desagradou quem poderia representar o município na referida instituição. Afastou-se assim, toda uma parcela territorial de aceder às regalias consideradas úteis e benéficas, sem exceção porque ainda há quem, só porque existe e conseguiu convencer a maioria a votar nele, se considera ungido e a sua conveniência pessoal ou mesmo as suas embirrações se sobrepõem a tudo o resto, independentemente da bondade.

Evidentemente que não é possível fazer passar todos e cada um dos candidatos por uma bateria de perguntas de resposta obrigatória antes de merecer a confiança. Mas será avisado desconfiar de todos os que se recusam assumir compromissos pré-eleitorais alegando que “isso depois se verá, dependendo dos resultados eleitorais, em concreto”.

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